quinta-feira, 10 de maio de 2018

Irão: o terror da guerra

OPINIÃO
10 de Maio de 2018, 18:38



A decisão de Trump de abandonar o acordo nuclear com o Irão é uma violação grave e extremamente perigosa da ordem internacional. 
Deixa o Irão sem a principal justificação para abandonar o seu programa nuclear: a proteção multilateral contra um ataque americano.

Sob a liderança reformadora de Hassan Rohani, o Irão aceitou suspender o seu programa nuclear, vencendo a oposição dos guardas revolucionários, a troco do fim das sanções, um poderoso argumento interno, mas sobretudo tendo em mente a diminuição da probabilidade de um ataque militar norte-americano. 
Só neste século, os EUA invadiram dois países vizinhos: o Iraque, a Ocidente, e o Afeganistão, a Oriente. 
Antes disso, o país tinha sido invadido pelo Iraque, numa guerra de oito anos que provocou cerca de um milhão de mortos. 
Os ocidentais  hipnotizados pela guerra contra o terror, esqueceram o terror das verdadeiras guerras, não é assim no Médio Oriente.

A vontade do Irão de se dotar de armas nucleares era justificada do ponto de vista estratégico, antes de tudo, pela necessidade de dissuadir uma invasão americana. 
Contudo um Irão  nuclear seria um golpe profundo no Tratado de Não Proliferação Nuclear, e impulsionaria outros – pelo menos a Arábia Saudita – a seguir o mesmo caminho.

À preocupação com a proliferação nuclear juntava-se com a crescente influência e ativismo militar do Irão na região. 
A destruição do poder anti-iraniano de Saddam Hussein, em 2003, aumentou substancialmente a influência de Teerão: o Iraque está hoje nas mãos das correntes políticas do xiismo pró-iraniano e a ajuda iraniana possibilitou a reconquista de Mossul ao Daesh; a intervenção militar iraniana tem sido decisiva para manter Assad no poder em Damasco; no Líbano, o Hezbollah, grande vencedor  das recentes eleições, tem  exército próprio e também intervém na Síria; e no Iémen, os rebeldes houthis têm o apoio de Teerão. 
Um Irão nuclear sentiria o seu território “santuarizado”, o que aumentaria as suas ambições regionais.

A Coreia do Norte conseguiu sentar os Estados Unidos à mesa das negociações dotando-se da arma nuclear, o que facilita o argumento dos que no Irão querem retomar o programa nuclear. 
Simultaneamente, a posição americana descredibiliza futuros acordos assinados pelos EUA, incluindo com a Coreia.

Todas estas razões sustentam a importância do acordo nuclear com o Irão, negociado durante 12 anos, e que, segundo os próprios serviços de informação de Trump, tem sido cumprido.


Mas se é assim, o que justifica a decisão de Trump? 
A resposta simples é que a Casa Branca está ocupada por um aventureiro perigoso, que não acredita em acordos multilaterais e que olha para o Irão, parte do “eixo do mal”, com as mesmas lentes do seu conselheiro Bolton, que advoga a mudança do regime iraniano pela força. 
A ideologia anti-islâmica de Trump e da extrema-direita americana pesou certamente na decisão. 
Mas conta também, e fortemente, a insistência com que os dois únicos aliados que lhe restam – Netanyahu e o poder fundamentalista saudita sunita – lhe pedem para embarcar numa aventura militar contra o Irão. 
Os ataques israelitas contra posições iranianas na Síria, nas vésperas da decisão de Trump, foram provocações a que o Irão não tinha respondido. 
Para os iranianos, tratava-se de não dar argumentos a Trump para romper o acordo; agora, como se viu, o incentivo para essa contenção é menor.

Creio, no entanto, que o que faz correr Trump é, antes de tudo, o medo de não ser reeleito e que os republicanos percam a maioria no Congresso nas eleições mid-term, o que poderá levar à abertura de um processo de impeachment. 
Todos os presidentes americanos sabem como a guerra congrega o apoio popular em torno da Casa Branca.

O que podem fazer os europeus? 
Pouco e muito. 
Pouco porque a sua capacidade para travar Trump é reduzida, como se viu no fracasso das tentativas da França, Alemanha e Reino Unido, signatários do tratado, para salvar o acordo. 
E já se viu que não é com pancadinhas nas costas que se normaliza Trump.

Mas podem muito – convencendo o Irão de que vale manter o tratado, mesmo sem os EUA. 
Não é fácil, pois não têm garantias de segurança para dar, mas podem trabalhar noutra vertente do acordo que interessa a Teerão, apoiando o seu progresso económico. 
Para isso, terão que se manter unidos e resistir à pressão que Trump faz sobre as empresas europeias, que ameaça com sanções. 
Neste domínio a posição do Reino Unido é crucial, e a condenação clara do governo May à decisão americana é uma ótima notícia. 
Mais, é crucial que os europeus não esqueçam que têm muitos aliados na América.

Nunca, desde a guerra do Iraque, foi tão importante a união da Europa, incluindo o Reino Unido. 
Em 2003, uma Europa unida teria travado Bush. 
Hoje, face ao nacionalismo brutal de Trump, nada é seguro. 
Cabe aos europeus demonstrar que podem defender a ordem multilateral e a paz, mesmo que isso implique correr o risco de uma rutura, temporária, dos laços transatlânticos.

Dupla decisão

OPINIÃO
Carlos Gaspar
10 de Maio de 2018, 6:48
A nova estratégia norte-americana deixou de ter como objectivo pôr em causa os regimes políticos da Coreia do Norte e do Irão: um acordo com Kim consolida o seu regime comunista e serve para demonstrar que Washington desistiu de minar a teocracia xiita, o que é um incentivo para uma nova negociação.

O Presidente dos Estados Unidos, no dia 8 de Maio, tomou duas decisões. 
A primeira, inteiramente previsivel, anuncia a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão, a segunda, já esperada, marcou data para o segundo encontro entre Kim Jong-un e o novo Secretário de Estado norte-americano.

A primeira decisão confirma a determinação de Donald Trump em desmantelar a herança de Barack Obama: depois do Tratado de Paris e da Parceria do Pacífico (TPP), era a vez do Plano de Acção Conjunto (JCPoA), que, no essencial, os Estados Unidos negociaram bilateralmente com o Irão, antes de ser aprovado como um acordo multilateral, incluindo os outros membros permanentes do Conselho de Segurança,  assim como a Alemanha.

O Presidente Macron, a chanceler Merkel e a primeira-ministra May empenharam-se a fundo em impedir a decisão americana: a acção conjugada dos representantes do três principais aliados europeus não teve sucesso e a divergência entre os dirigentes ocidentais cria as condições para uma crise séria na Aliança Atlântica.

A decisão dos responsáveis europeus em preservar o acordo multilateral é importante, mas deve ser entendida como uma forma de ganhar tempo para criar condições para um novo acordo entre os Estados Unidos e o Irão, se possível com o envolvimento de outros parceiros regionais, como Israel, a Turquia e a Arábia Saudita. 
Os aliados europeus não têm autonomia estratégica para se colocarem numa falsa posição como mediadores entre Teerão e Washington e devem reconhecer sobriamente que só são relevantes no Médio Oriente se puderem contar com os Estados Unidos. 

A segunda decisão confirma a determinação de Trump em completar um acordo nuclear com a Coreia da Norte, para neutralizar o principal perturbador das relações entre os Estados Unidos e a China, que está tão empenhada como os a diplomacia norte-americana em conter os riscos de proliferação nuclear na Asia do Nordeste.

A parada das cimeiras asiáticas demonstra a importância do próximo encontro entre Trump e Kim. 
Nos útlimos dias, os primeiros-ministros da China, do Japão e da Coreia do Sul realizaram uma cimeira tripartida e, sobretudo, o Presidente Xi Jinping e Kim reuniram-se uma segunda vez em Dalian. 
A imprensa chinesa reproduz uma declaração de Kim nessa cimeira informal em que o dirigente norte-coreano afirma que se as “partes relevantes” deixarem de ameaçar a segurança norte-coreana, “não há nenhuma razão para a República Popular Democrática da Coreia ser um Estado nuclear”. 
Essa declaração, cujo contexto sublinha implicitamente a necessidade de um “chapéu-de-chuva” nuclear do irmão mais velho chinês para garantir a segurança norte-coreana, foi feita no mesmo dia em que Trump anuncia a decisão de retirar os Estados Unidos do acordo nuclear iraniano.

A decisão norte-americana é uma dupla decisão e, para a diplomacia dos Estados Unidos, os acordos nucleares com o Irão e a Coreia do Norte e, aparentemente, os dois processos negociais, passaram a ser inseparáveis.

Trump não quer repetir com Kim o mau precedente de um acordo demasiado imperfeito - o acordo iraniano não incluia os misseis com capacidade nuclear, que os norte-americanos consideram essenciais no caso norte-coreano - e tem a pretensão de poder negociar um acordo melhor com a Coreia do Norte - sobretudo se Washington puder contar com Pequim em Pyongyang. 
Esse acordo pode servir, por sua vez, como um bom precedente para um novo acordo com o Irão. 
Em ambos os casos, a nova estratégia norte-americana deixou de ter como objectivo pôr em causa os regimes políticos da Coreia do Norte e do Irão: um acordo com Kim consolida o seu regime comunista e serve para demonstrar que Washington desistiu de minar a teocracia xiita, o que é um incentivo para uma nova negociação.

Os mais cépticos consideram que os Estados Unidos de Trump não têm qualquer estratégia, mas podem não ter razão: os generais que tutelam as politicas externas norte-americanas costumam ter estratégias, boas ou más.

Em todo o caso, como ensina Spinoza, para fazer a paz é preciso existirem duas partes. Ora, tanto a Coreia do Norte, como o Irão, têm estratégias próprias e partem de posições mais fortes do que no passado. 
A Coreia do Norte demonstrou ter uma capacidade nuclear militar autónoma e só depois aceitou sentar-se à mesa para negociar bilateralmente com os Estados Unidos, aparentemente sem antes ter obtido o nihil obstat da China. 
O Irão aceitou congelar o seu programa nuclear militar, mas ganhou uma projecção sem precedentes no Iraque, no Líbano e na Síria, onde o crescendo da sua presença militar representa uma alteração significativa da balança regional: a tentação de jogar numa escalada da guerra no Médio Oriente pode ser irresistível para a linha revolucionária islâmica.

Nada está adquirido e tudo, ou quase tudo, está por fazer. Karl Marx dizia que os homens fazem a sua história, mas não sabem que história fazem: não é impossivel que, além de o celebrarem, ainda o leiam nas margens asiáticas.

Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-UNL)

O dilema europeu: entre o Irão e os EUA, a escolha só pode ser uma

ANÁLISE
Teresa de Sousa
10 de Maio de 2018, 6:48
A decisão de Donald Trump, que os líderes europeus se esforçaram tanto por evitar, é talvez o acontecimento que mais se arrisca a afectar o que resta de segurança e de estabilidade na cena internacional.

1. A pergunta que se põe hoje é simples: poderá a Europa “salvar” o acordo com o Irão? 
Os principais negociadores europeus do acordo nuclear de 2015 dizem que vão tentar. 
O governo iraniano acrescenta que, por agora, sim. 
O regime está a capitalizar politicamente o aventureirismo americano, tentando mostrar um comportamento moderado e rejeitando as acusações da Casa Branca e de Israel sobre o seu alegado programa nuclear secreto. 
Até quando? 
Nesta quarta-feira, o guia supremo do regime, Khamenei, anunciou que não confiava “nesses três países”- Alemanha, França e reino Unido. 

A decisão de Donald Trump, que os líderes europeus se esforçaram tanto por evitar, é talvez o acontecimento que mais se arrisca a afectar o que resta de segurança e de estabilidade na cena internacional. 
Vai desencadear um conjunto de reacções em cadeia que podem levar o Médio Oriente a um conflito que afectará o mundo inteiro e, em primeiro lugar, a própria Europa. 
Obrigará os aliados dos EUA a fazer escolhas muito difíceis. 
Permitirá à Rússia tirar vantagens da desordem, como fez na Síria. 
Obrigará a China, já em vias de fazer algumas correcções da sua política externa, a refazer os cálculos para a sua “ascensão” ao estatuto de grande potência de influência mundial – o objectivo da nova liderança de Xi.

2. Comecemos pelos europeus. 
Citado pela Reuters, um diplomata iraniano que esteve envolvido nas negociações do acordo, dizia que, perante uma escolha desta natureza, a Europa “acabaria por ficar do lado dos Estados Unidos”. 
É uma manifestação de realismo. 
Os aliados europeus continuam a depender dos Estados Unidos para garantir a sua segurança, num mundo cada vez mais inseguro. 
Trump pode colocá-los perante uma escolha vital. 
Não há alternativa à América num mundo em que o poder está cada vez mais nas mãos de grandes potências rivais, perante o qual a Europa não está em condições de agir como um poder autónomo. 
Continua a ser uma grande potência civil. 
Não está à beira de se transformar numa grande potência mundial, dispensando os EUA. Aliás, basta pensar duas vezes para provar que é assim.

Os europeus não conseguem entender-se sobre como deve funcionar a zona euro e digladiam-se furiosamente em torno de um orçamento plurianual, só porque acrescenta uma décima (0,1%) ao já minguado orçamento de 1% do seu Rendimento Nacional Bruto (que representa cerca de 20% da riqueza do globo). 
Estão, por maioria de razões, ainda mais longe de se entenderem sobre o que querem ser no futuro, quando se fala de segurança e defesa. 
Mesmo quando decidem criar uma “cooperação estruturada permanente” para a Defesa (o nome é, só por si, significativo da dificuldade de encarar a realidade), as divergências entre Berlim e Paris mais a saída do Reino Unido reduzem drasticamente a sua ambição, em flagrante contraste com a velocidade dos acontecimentos mundiais a que assistimos.

A chanceler alemã aproveitou nesta quarta-feira o Irão para insistir em que o seu país tem de aumentar o orçamento da Defesa para os 2% fixados pela NATO (até 2024), embora o seu ministro das Finanças, o social-democrata Olaf Scholz, não tenha levado isso em conta na apresentação tardia do Orçamento federal. 
Merkel também lembrou que a manutenção do acordo com o Irão não deve impedir a Europa de participar na negociação de um novo acordo, que contenha as exigências americanas e abranja um conjunto mais vasto de actores regionais. 
Macron tem a mesma posição e Theresa May também.

3. Há ainda a parte económica. 
Com o acordo de 2015, o levantamento das sanções abriu caminho ao investimento europeu no Irão e à importação de gás. 
Mas as empresas europeias estarão atentas às consequências da imposição de novas sanções por Washington, que podem afectar os seus negócios nos EUA. 
Nem é preciso chegar a tanto – o clima de confiança criado pelo acordo está definitivamente posto em causa. 
A incerteza regressa. 
Dieter Kemp, director da associação industrial alemã BDI, reconhece que havia uma “alta expectativa” para as empresas alemãs no mercado iraniano, com o levantamento das sanções”. 
“Estas expectativas estão hoje muito mais nubladas”. 
“Quem conseguiu esquecer o espectáculo dado pelo ministro da Economia, Sigmar Gabriel (social-democrata), aterrando em Teerão com uma delegação de empresários, quando a tinta do acordo ainda nem sequer tinha secado” lembra o Politico. 
O francês Les Echos descrevia nesta quarta-feira idêntica corrida do investimento francês, envolvendo empresas tão importantes como a Renault, PSA, Total ou Airbus. 
Os americanos foram mais lentos.

Segundo a BBC, John Bolton terá já avisado as empresas europeias [e americanas] que fazem negócio com o Irão, que terão seis meses para deixar de fazê-lo, ou enfrentam sanções dos EUA. 
Em 2016, as exortações de energia para a Europa aumentaram 344%, para 5,5 mil milhões de euros. 
No mesmo ano, o investimento externo no Irão subiu para 20 mil milhões.

Há outra consequência económica da decisão americana: o preço do petróleo tenderá a subir, o que não é uma boa notícia para os europeus, altamente dependentes da importação de energia.

4. Falta ainda uma terceira dimensão sobre as eventuais consequências da decisão americana. 
Para o Irão, não faz grande sentido um acordo sobre o nuclear se não tiver os Estados Unidos a bordo. 
Os europeus sabem isso. 
Mais uma vez, por uma razão simples: o acordo dava garantias ao regime iraniano de que os EUA tinham abandonado a estratégia de “regime change”, na qual George W. Bush apostou, defendendo para o Irão a tese do quanto pior, melhor. 
Sem os EUA, essa garantia deixa de existir. 
Ao contrário de Bush, Trump não quer gastar tempo nem dinheiro com a segurança no Médio Oriente. 
Mas apoiará os regimes que desafiam a influência do Irão e já tomou partido pela Arábia Saudita na grande fractura que divide o mundo islâmico entre sunitas e xiitas. 
Resta lembrar que, do actual governo de Israel, tudo é possível.

5. A aposta do Presidente americano é agora na Coreia do Norte, com cujo regime quer negociar um acordo que sirva os interesses americanos, em oposição ao que Obama negociou com o Irão. 
Tal como Teerão, Pyongyang quer ter os EUA como interlocutor directo, porque são eles que podem dar ao regime megalómano de Kim Jong-un as melhores garantias de sobrevivência. 
Negociar directamente com a América é também mostrar ao seu único protector, a China, que não está assim tão dependente dele. 
Qual pode ser o impacto da decisão de Trump para o Irão em Pyongyang? 
Ver-se-á em breve.

Tal como na Europa, a segurança dos aliados na Ásia-Pacífico – e, em primeiro lugar, o Japão – também depende das garantias americanas. 
Tóquio vê com bons olhos a abertura de negociações com a Coreia do Norte, embora não queira ser marginalizado. 
Shinzo Abe, de cada vez que Trump toma uma decisão que possa eventualmente alterar o actual equilíbrio de poder na região, voa até Nova Iorque ou Miami, para se encontrar com o Presidente Trump, nem que seja num campo de golfe. 
O Japão, ao contrário da Europa, tem limites estritos à sua capacidade militar, reduzindo-a a um mero instrumento defensivo. 
O dilema mantém-se há anos: virão os EUA em seu socorro, em caso de ameaça directa à sua segurança?

6. Regressando à Europa, um diplomata francês citado pela Reuters dizia mais ou menos o mesmo que o diplomata iraniano. 
“As empresas acabarão por ser forçadas a escolher entre os seus interesses económicos no Irão e os actuais e potenciais interesses nos EUA”. 
Concluía: “Geralmente , esta decisão é rapidamente tomada a favor dos EUA”.

teresadesousa@público.pt

A Europa vai ter de pagar

EDITORIAL
Diogo Queiroz de Andrade
10 de Maio de 2018, 6:50
A única hipótese de manter vivo o acordo nuclear com o Irão é garantir que os europeus compensam o vazio americano.

A única maneira de manter o acordo iraniano vivo é uma intervenção rápida da União Europeia, que se represente na esfera diplomática mas cujo impacto tem de ser financeiro. 
A única hipótese de manter este acordo vivo é garantir que os europeus compensam o vazio americano. 
Mas o custo vai ser alto e não é garantido que os europeus aguentem as três alíneas da factura: o aumento imediato do preço do petróleo, de que a Europa é altamente dependente; a cobertura da parte americana do acordo com o Irão, que é considerável; e a terceira, provavelmente insustentável para as empresas europeias, que consiste nas sanções americanas a empresas que façam negócios com o Irão.

Mais uma vez se coloca sobre Bruxelas pressão para pensar a coesão e a presença do bloco europeu num cenário global, onde é preciso ter um exército capaz para que a voz seja escutada. 
E com os aliados da NATO a mostrar retóricas muito diferentes, começa a ser óbvio que os interesses europeus no mundo só poderão ser devidamente defendidos pelos europeus.

Bruxelas vai tentar um novo acordo, acordo esse que só será assinado pelos EUA se Teerão ceder mais. 
Mas isso está longe de ser um dado adquirido. 
Esta acção americana vai fortalecer a ala dura do regime iraniano, que poderá não estar pelos ajustes e decidir pura e simplesmente retomar o plano de capacitação nuclear – que, como se viu no caso da Coreia do Norte, é mais fácil de atingir do que se julgava. 
Até porque o Irão de hoje já não é o de 2015, tendo ganho maior relevância na Síria e no Líbano e estreitado relações com russos e chineses.

A forma como Washington cedeu ao fascismo saudita e israelita representa bem o mecanismo como se exerce o poder hoje na capital americana: aos repelões, sem sentido de continuidade nem lógica. 
E se em tempos o Departamento de Estado era conhecido pela qualidade da sua elite, hoje é reconhecido pelo percurso errático que é gerido em função do umbigo e sem consideração pela História.

Isto demonstra que, no clima crispado que são os EUA do século XXI, a palavra do Presidente vale pouco menos que zero – uns meros meses ou anos até chegar um sucessor e tudo se altera. 
Para a Casa Branca, tudo é curto prazo e uma assinatura num tratado internacional vale o mesmo que um tweet. 
Isto ajuda a explicar a erosão americana no mundo e, por efeito inverso, a emergência da China no panorama global, nação que considera cem anos como curto prazo e que raramente tem pressa para agir. 
E que, não por acaso, sairá a ganhar de toda esta crise com o Irão.

dqandrade@público.pt

Israel e Irão dão uma amostra do que seria a guerra que todos temem

MÉDIO ORIENTE
Clara Barata
10 de Maio de 2018, 18:32 

Ataques iranianos e contra-ataques israelitas nos Montes Golã seguem-se à ruptura do acordo nuclear pelos EUA e mostram que guerra na Síria é o próximo palco de confronto regional.


A aviação israelita bombardeou dezenas de alvos iranianos na Síria, e o ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, afirmou mesmo que foram destruídas quase “todas as infra-estruturas militares iranianas” naquele país, depois de o exército de Israel ter responsabilizado os Guardas da Revolução por um ataque com cerca de 20 rockets lançado na madrugada de quinta-feira contra uma povoação israelita no território ocupado dos Montes Golã.

























“Se houver chuva do nosso lado, haverá uma cheia do lado deles”, ameaçou o radical Lieberman. 
“Espero que todos tenham compreendido”, disse ainda o ministro da Defesa sobre o maior ataque israelita na Síria desde o início da guerra que destroça o país desde 2011. 
Aliás, os media israelitas classificam este ataque seguido de resposta como o confronto mais sério nesta zona desde a guerra do Yom-Kippur em 1973.

Do lado iraniano, no entanto, não houve comentários ao ataque israelita, nem confirmação de que tenha havido um ataque com rockets por parte da Al-Quds, a força expedicionária dos Guardas da Revolução, que é uma das partes do conflito na Síria e aliada do Presidente Bashar-Al-Assad.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, que monitoriza a guerra com uma rede de fontes no terreno, avançou que os ataques israelitas mataram pelo menos 23 combatentes, incluindo tropas governamentais e estrangeiros – sem especificar se haveria iranianos entre as vítimas. 
O exército israelita diz que os alvos atingidos incluem vários locais de armazenamento de sistemas de recolha de informações iranianas, paióis e quartéis.

O jornal hebraico Ha’aretz diz que se trataria de uma tentativa de retaliação por causa do bombardeamento israelita da base T4 da Al-Quds, perto de Palmira, na Síria, a 9 de Abril, em que morreram sete iranianos. 
Mas quatro dos rockets foram interceptados pelo sistema de proteção Cúpula de Ferro, deslocado antecipadamente para os Golãs, e o resto caiu ainda em território sírio, falhado o alvo.


Desde que o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou, na terça-feira, que os Estados Unidos deixam de estar ligados ao acordo nuclear com o Irão, que Israel pôs o seu exército em alerta, chamou reservistas, accionou o sistema Cúpula de Ferro e ordenou que fossem preparados abrigos anti-aéreos nos Montes Golã – isto porque, explicou, detectou "actividades irregulares” das forças iranianas na Síria, explica o jornal The New York Times.

Tiro de partida de Trump
Este agudizar de tensões que se reflecte no crescente intervencionismo de Israel no conflito sírio está claramente relacionado com a quebra do compromisso norte-americano no acordo nuclear com o Irão.

Não foi por acaso que na quarta-feira o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, foi a Moscovo, falar sobre o Irão com o Presidente russo, Vladimir Putin, com quem tem boas relações. 
“Apresentei a obrigação e o direito de Israel a defender-se contra a agressão iraniana proveniente de território sírio”, disse Netanyahu, numa declaração citada pelo New York Times.

Embora isso não se entendesse pelas palavras com que o Presidente dos EUA retirou o seu país do acordo que limita o desenvolvimento de armas nucleares pelo regime de Teerão, a guerra na Síria, em que Bashar Al-Assad e o seus aliados – Irão, Hezbollah e Rússia – estão em posição ascendente é o palco que se segue nesta crise.

“A preocupação do Presidente francês Emmanuel Macron tem sido a de que a crise iraniana seja vista como inextricavelmente ligada à situação na Síria”, comentou Patrick Wintour, editor de diplomacia do jornal britânico The Guardian. Israel, que tem exercido uma pressão constante para que os EUA abandonem o acordo nuclear com o Irão, nunca aceitaria um desfecho na vizinha síria que deixasse o Irão com bases permanentes no país de Assad, numa posição vantajosa para atingir o Estado hebraico.


“A rejeição enfática do acordo nuclear por Trump deu a Israel o seu momento de sonho”, disse Wintour, citando um diplomata europeu. 
O que falta é saber se Israel e os EUA estão a agir em conjunto, diz o analista. “Washington aplica a pressão económica através de sanções e Israel a pressão militar, através de ataques aéreos”.

Dedo no gatilho
Há uma clara sensação nos últimos meses de que há um dedo muito próximo do gatilho, tanto em Israel como no Irão – sem esquecer a Arábia Saudita, que vê em Teerão um perigo existencial e não tem más relações com os israelitas. 
Foram publicadas em alguns media ocidentais imagens do que se dizia ser as instalações militares secretas iranianas na Síria. 
Houve vários bombardeamentos mais ou menos misteriosos na Síria, atribuídos a Israel, mas nem sempre assumidos. 
E houve investidas de drones iranianos na zona dos montes Golã, que poderiam ou não ter explosivos (as notícias são confusas).

A aprovação, no início do mês, pelo Parlamento israelita, de uma nova lei que permite que o Estado de Israel declare guerra a outro país simplesmente se o primeiro-ministro e o ministro da Defesa o decidirem – embora em circunstâncias consideradas “extremas” – não contribuiu para a calma. 
A lei foi aprovada na mesma noite em que Netanyahu deu uma conferência de imprensa acusando o Irão de ter mentido sobre o seu programa nuclear.

Existe também muita especulação sobre as intenções de Qassem Suleimani, o poderoso comandante da força Al-Quds dos Guardas da Revolução, que actua na Síria, como dizia o colunista do New York Times Thomas L. Friedman em Abril. 
Há muitas interrogações sobre as lutas de bastidores no Irão, num momento em que o poder do Presidente, Hassan Rouhani, é seriamente abalado pelo abandono do pacto nuclear pelos Estados Unidos, arrastando na queda o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif. 
A própria sucessão do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei, é cada vez mais uma questão em aberto – num ano em que regressaram manifestações populares à rua, contestando o regime.

Espera-se que a posição russa seja determinante para aplacar o conflito nascente – que, se acontecer, será de carácter regional, e deve ter a Síria como principal palco. 
Aliada do Irão e de Assad, com boas relações com Israel, Moscovo anunciou que continuará a cooperar com Teerão nos assuntos relacionados com o seu programa nuclear. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrou apelou ao “diálogo” entre Israel e Irão.

Os países da União Europeia sublinharam o “direito de Israel a defender-se” e condenaram os ataques iranianos – e o mesmo fez a Casa Branca de Trump.


clara.barata@público.pt

Israel acusa Irão de atacar Montes Golã e bombardeia “dezenas” de alvos na Síria

MÉDIO ORIENTE
Público
10 de Maio de 2018, 10:02 
Presidente francês pede fim da escalada entre os dois países. 
Ministro da Defesa de Israel diz que foram atingidas quase todas as posições iranianas na Síria e que espera que "toda a gente tenha percebido a lição".

Israel acusou as forças iranianas de dispararem 20 mísseis contra territórios que controla, nos Montes Golã, e respondeu com o que a imprensa israelita descreve como o maior ataque em território sírio nas últimas décadas. 
Telavive garante que foram atingidas “dezenas de posições iranianas na Síria”, noticia a AFP.

Segundo a Reuters, pouco passava da meia-noite quando os Montes Golã foram atacados pela primeira vez, a partir da Síria, pelas forças iranianas. 
Israel garante que interceptou e destruiu pelo menos 20 rockets iranianos, atribuindo o ataque à força de elite al-Quds, um dos braços da Guarda Revolucionária iraniana. 
Em resposta ao ataque, dezenas de mísseis israelitas atingiram vários alvos iranianos na Síria, entre eles depósitos de armamento, uma estação de radar e bases de defesa antiaérea, noticiou a agência noticiosa síria, a Sana.

Na segunda-feira – depois do anúncio da Casa Branca de retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão – Telavive já tinha reforçado os meios de defesa neste território ocupado à Síria e orientando as autoridades civis para que abrissem os abrigos anti-bomba.

O ataque israelita contra território sírio visou alvos iranianos, nomeadamente um depósito de armamento pertencente à Guarda Revolucionária iraniana numa localização a Sul de Damasco. 
O lançamento de mísseis iranianos terá sido uma resposta a esse ataque, mas Israel, que tem sustentado que não permitirá que o Irão nem a milícia xiita libanesa Hezbollah consigam consolidar a sua presença em território sírio.

“Espero que tenhamos encerrado este capítulo e que toda a gente tenha percebido a lição”, afirmou o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, numa conferência sobre segurança em Herzliya, Telavive, cita a Reuters.

Assegurando que Israel atingiu “quase todas as infra-estruturas iranianas na Síria”, Lieberman acusou o Irão de “ser possivelmente o único país que hoje representa o extremismo não só do ponto de vista ideológico, mas também de forma activa, disposto a sacrificar os seus próprios cidadãos e o seu futuro em nome dessa ideologia radical”. 
“A sua actividade não se limita ao Estado de Israel”, disse o ministro, “vemos os iranianos a operar no Iémen, no Iraque, no Líbano e também em África”, sublinhou, em declarações reproduzidas pelo site israelita Ynet.

O jornal israelita Haaretz cita uma fonte anónima ligada às forças de segurança que garantiu que o ataque foi o maior dirigido contra a Síria desde Maio de 1974 e que o país de Bashar al Assad foi avisado para não retaliar. 
Além disso, a Rússia também foi avisada antes da ofensiva.

Quanto ao ataque iraniano, foi “comandado e ordenado pelo [general da al-Quds] Qassem Soleimani, que não conseguiu atingir os seus objectivos”, acusou o porta-voz do exército de Israel, Jonathan Conricus,

Referindo desconhecer o número baixas iranianas provocadas pela resposta de Israel, Conricus sublinhou que Televavive “foca-se menos em pessoal militar e mais em capacidade e armamento, de modo a infligir um dano de longo prazo às posições iranianas na Síria”, que “vão demorar muito tempo a substituir”.

Perante o maior ataque israelita em décadas, o Presidente francês, Emmanuel Macron, apelou ao fim da escalada da tensão entre os dois países.

Fontes do gabinete da presidência francesa disseram à AFP que Macron ia abordar o assunto com a chanceler alemã, Angela Merkel, num encontro esta quinta-feira em Aix-la-Chapelle, França. 
Merkel fez o discurso na cerimónia em que foi entregue a Macron o Prémio Carlos Magno, que destingue desde 1950 uma personalidade política europeia. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Guterres diz que restantes países devem respeitar acordo com Irão

NUCLEAR
Lusa e Público
8 de Maio de 2018, 21:20 























Secretário-geral da ONU manifesta-se "profundamente preocupado" com a retirada dos EUA e o reforço de sanções.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apela aos seis países signatários do acordo nuclear com o Irão que “respeitem totalmente os compromissos”, apesar da retirada dos Estados Unidos, anunciada nesta terça-feira pelo Presidente Donald Trump. “Estou profundamente preocupado com o anúncio da retirada dos Estados Unidos do acordo e o retomar de sanções”, referiu António Guterres, através do porta-voz.

Numa posição conjunta assinada pelos líderes da Alemanha, França e Reino Unido, diz-se que a decisão do Presidente dos EUA não impede os restantes subscritores de manter o acordo vivo — Angela Merkel, Emmanuel Macron e Theresa May apelam, de resto, a que os EUA “permitam que se mantenha a aplicação das suas principais disposições”. 
Ao mesmo tempo, encorajam o Irão a “dar provas” do seu compromisso com o documento, na resposta à decisão americana.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os Estados Unidos abandonam o acordo nuclear assinado pelo Irão e pelo grupo dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha. 
Trump disse estar aberto a uma renegociação do acordo. 
Mas Teerão já disse que não o fará.

"Hoje anuncio que os Estados Unidos se retiram do acordo nuclear com o Irão”, disse Trump numa declaração à imprensa na Casa Branca, em Washington, acrescentando que os Estados Unidos “voltarão a impor sanções económicas ao mais alto nível”.

Donald Trump afirmou que tem “a prova” de que o Irão mentiu sobre o programa nuclear, classificando aquele país como "um regime de grande terror". 
O acordo, disse, que "nunca, mas nunca", devia ter sido feito. 
"Não trouxe a paz nem nunca a trará".

Pelo contrário, António Guterres defende que o acordo é uma “grande conquista” da diplomacia, que contribuiu para a “paz e segurança nacional e internacional”.

A decisão de Trump significa que os EUA repõem todas as sanções que foram levantadas após a assinatura do acordo nuclear, em 2015, durante a Administração Obama.