sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Nos bastidores, EUA e Coreia do Norte têm conversações regulares

MUNDO
Diplomacia

11 DE AGOSTO DE 2017 17:30























Governos de Washington e de Pyongyang têm discutido discretamente o estado das relações diplomáticas entre os dois países

No meio da contínua escalada de tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, com o líderes dos dois países a trocarem ameaças publicamente, foi revelado esta sexta-feira que, nos bastidores, as duas nações mantêm uma linha de comunicação e negociações há meses.

Segundo a agência AP, os governos de Washington e de Pyongyang têm discutido a situação dos norte-americanos detidos na Coreia do Norte e o estado das relações diplomáticas entre os dois países.

O enviado norte-americano para a Coreia do Norte Joseph Yun tem contactado frequentemente Pak Song Il, o diplomata norte-coreano que representa o país nas Nações Unidas, naquele que é chamado o "canal de Nova Iorque". 
Yun, nascido na Coreia do Sul, é o único diplomata dos Estados Unidos em contacto com o lado norte-coreano, segundo fontes citadas pela AP.

As mesmas fontes dizem que estes contactos não tiveram ainda qualquer efeito no sentido de amenizar a busca da Coreia do Norte por armas nucleares, mísseis e avanços no armamento - que é vista como uma ameaça pelos Estados Unidos. 
Ainda assim, estas conversas nos bastidores podiam ser uma base para negociações sobre temas mais sérios, caso os líderes Donald Trump e Kim Jong-Un abandonassem a retórica bélica e as ameaças e aceitassem dialogar.

Trump disse esta terça-feira que a Coreia de Norte iria enfrentar "fogo e fúria como o mundo nunca antes viu" e acrescentou dias depois que esta nação deve ficar "muito, muito nervosa". 
A Coreia do Norte afirmou que Donald Trump é "desprovido de razão", que só funciona com a força e ameaçou atacar a base militar dos Estados Unidos em Guam, no Pacífico.

Era sabido que os EUA e a Coreia do Norte tiveram conversações em que foi acordada a libertação do jovem estudante norte-americano preso pelo regime de Pyongyang, Otto Warmbier, mas apenas agora foi revelado que o diálogo se manteve aberto até ao presente.

Warmbier, de 22 anos, foi libertado em junho, após 17 meses de detenção, e morreu uma semana depois.

O secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson disse esta semana, nas Filipinas, que existem "meios de comunicação abertos" entre os países, "para os ouvirmos se eles tiverem vontade de falar".

Já existiam versões do canal de Nova Iorque em administrações anteriores. 
Obama mantinha contactos com a Coreia do Norte, mas estes foram cortados nos últimos sete meses da presidência do democrata. 
Nessa altura, Kim Jong-Un cortou a linha de comunicação como resposta a sanções norte-americanas.

A Coreia do Norte e os Estados Unidos não têm laços diplomáticos e são, tecnicamente, inimigos, já que nunca conseguiram um tratado de paz, apenas um armistício, para acabar com a guerra da Coreia, entre 1950 e 1953.

Esta sexta-feira, várias nações se manifestaram quanto à tensão entre os dois países com arsenal nuclear. 
A China avisou que vai ser neutra se a Coreia do Norte lançar primeiro um ataque contra os Estados Unidos, mas irá reagir firmemente no caso de os EUA e a Coreia do Sul "realizarem ataques e tentarem derrubar o regime norte-coreano". 
A Alemanha opôs-se hoje a uma qualquer "solução militar" e a Rússia considerou "muito elevado" o risco de um confronto militar entre os EUA e a Coreia do Norte.

Elas fugiram da Coreia do Norte. Histórias de quem não pode, nem quer, regressar

Cátia Bruno 10 Agosto 2017170










Lee fugiu para ver como era a vida na China e nunca mais voltou. Park conseguiu sair duas vezes do país de Kim Jong-un onde esteve num campo de trabalhos forçados. Falámos com elas.

Jihyun Park saiu da Coreia do Norte há 18 anos, mas as quase duas décadas de distância não lhe apagaram um último arrependimento. “Não me despedi do meu pai, porque pensava que ia poder regressar. A minha última memória dele é vê-lo sentado na sala, sozinho.” Park tinha 30 anos e tomou a decisão de abandonar o único país que conhecia por pressão do próprio pai, um motorista estatal. O objetivo era o de fugir com o irmão mais novo, que tinha desertado do Exército. Park e a família não tinham completa noção do que lhes poderia acontecer, mas não quiseram arriscar. Foi assim que os dois irmãos partiram para o desconhecido.

Foi o início da viagem de uma vida, que levaria Park à China e por fim ao Reino Unido, país com uma das maiores comunidades de norte-coreanos na Europa (cerca de 600). Agora, com 49 anos, a norte-coreana conta ao Observador a história da sua vida fora da Coreia do Norte num tom calmo e distante. Na fronteira nordeste do país, um traficante separou-a do irmão, que nunca mais viu, e vendeu-a por cinco mil yuan (cerca de 600 euros) a um marido chinês. Seguiram-se anos a ser controlada pela família do marido: “Na minha aldeia havia outras quatro mulheres norte-coreanas, mas nunca pude conhecê-las”, recorda Jihyun. “Costumava cruzar-me com uma delas na rua, mas não falávamos. Tínhamos medo. Só trocávamos olhares.”

Ao fim de seis anos engravidou, mas, ao contrário do que o marido queria, não abortou. Durante meses escondeu a gravidez e acabou por fazer o parto sozinha. Depois, temendo que a família do marido lhe tirasse o bebé, ganhou coragem e fugiu com ele para a cidade mais próxima, onde acabou a sustentar-se vendendo vegetais no mercado. A odisseia na China terminaria de forma negra: denunciada por outros vendedores, acabou por ser deportada de volta para a Coreia do Norte. Miraculosamente, passou apenas dois meses num campo de trabalhos forçados. Uma lesão grave numa das pernas foi o preço alto a pagar pela liberdade: “O diretor do campo disse-me ‘não podes morrer aqui’, e libertou-me. Estávamos em 2004, um ano em que morreu muita gente nos campos norte-coreanos e as autoridades não queriam arriscar ter mais pessoas a morrer a seu cargo”, alvitra Jihyun.

Jihyun Park, 49 anos, vive atualmente em Bury, perto de Manchester 
Fugiu novamente para a China com o objetivo de recuperar o filho. Foi mais fácil do que Park pensava, uma vez que a família do pai estava pouco ou nada interessada em ficar com a criança. E em 2008 consegue finalmente, com a ajuda das Nações Unidas no terreno, obter asilo na embaixada do Reino Unido na China. Foi assim que finalmente encontrou descanso em Bury, uma vila perto de Manchester. “Sou uma testemunha viva do que se passa na Coreia do Norte e na China. Os media focam-se muito nas questões nucleares e pouco nas questões humanas. Nós, norte-coreanos, somos humanos. Não vivemos noutro planeta”, diz Park em inglês, mas com um sotaque ainda carregado. A sua história é tão impressionante que parece ficção, mas as marcas que a coreana traz no corpo são bem reais. São fruto da tortura que sofreu no campo nos arredores de Chongjin e chegaram para convencer as autoridades britânicas de que tinham perante si uma verdadeira refugiada.

A história de Park é, apesar de tudo, comum. É mulher, como a grande maioria dos desertores da República Popular Democrática da Coreia do Norte — 70% de todos os norte-coreanos que vivem atualmente na Coreia do Sul são mulheres, por exemplo. É o resultado de um sistema onde os homens são forçados a ter um trabalho fixo e controlado pelo Estado, enquanto as mulheres se limitam a trabalhos informais como a venda no mercado. Na Coreia do Norte, fugir é mais fácil para elas do que para eles. “Basta ver que no Exército cerca de 80% dos membros são homens”, ilustra Park.

O timing em que esta norte-coreana fugiu também coincide com o do grande êxodo de população do país, em finais da década de 90 e inícios dos anos 2000. Até 1998, menos de mil norte-coreanos tinham dado o salto para o país vizinho da Coreia do Sul. “Era um número minúsculo, se considerarmos que, enquanto o muro de Berlim esteve de pé, 21 mil alemães orientais fugiram, em média, para o Ocidente, todos os anos”, escreve a jornalista norte-americana Barbara Demick no seu livro “A Longa Noite de um Povo – A Vida na Coreia do Norte” (ed. Temas e Debates).

A grande fome que assolou o país no final da década de 90 inverteria por completo a situação, com o número de desertores a subir, motivados não por questões políticas, mas por sérias dificuldades económicas. Com o aumento do fluxo de saídas, surgiram as redes organizadas de traficantes que elevaram ainda mais os números. Segundo dados de um relatório do congresso americanoentre os anos 2007 e 2011 a média de norte-coreanos que chegaram por ano à Coreia do Sul foi de 2678. Nos anos seguintes, desceria 45%, muito em parte pelo reforço da vigilância na fronteira nordeste da Coreia do Norte, local por onde a grande maioria dos refugiados foge, seguindo depois para a China e daí para a Coreia do Sul.

Movidos pela fome, pelo medo… e pela curiosidade

A Coreia do Sul soa para muitos como terra prometida. Afinal de contas, o governo sul-coreano considera como seus cidadãos todos os que nasceram na península e dá ainda três meses de formação e uma bolsa aos norte-coreanos que alcancem o país. Aos que têm a sorte de conseguir lá chegar.

Os números são difíceis de verificar, mas várias ONG estimam que pelo menos 100 mil norte-coreanos vivem atualmente na China, na sua maioria mulheres sujeitas a tráfico sexual ou casadas à força. Os problemas demográficos chineses, alimentados pela política restritiva do “filho único”, levaram a uma disparidade homens/mulheres que chega a rácios de 14 para 1 em algumas zonas rurais da China. Assim sendo, muitos homens disponibilizam-se para pagar por uma noiva e os traficantes usam a situação a seu favor, trazendo mulheres da Coreia do Norte e vendendo-as a estes homens.

Não há números oficiais, o que torna difícil avaliar a evolução da situação, mas a opinião de quem está no terreno é de que a situação já foi pior. “Pelo que vejo, há menos refugiados a ir para a China e a ficar lá”, garante ao Observador Dan Chung, responsável da organização cristã Crossing Borders, que ajuda norte-coreanos na China. “Isto acontece por três razões: em primeiro lugar, a chamada rede subterrânea cresceu e melhorou; em segundo, a Coreia do Norte fortaleceu a segurança na fronteira e, por fim, a situação alimentar melhorou. Não há mais comida, mas a distribuição está melhor”, explica Chung.

“Uma pessoa que foge da Coreia do Norte pode ser executada… Por isso a maior motivação para sair do país é só se alguém sentir que tem a sua vida em risco, seja por morrer de fome, seja por estar a ser perseguido.” A vida na China não é cheia de glamour para a maior parte destas mulheres; e, no entanto, muitas preferem-na e não concebem a ideia de regressarem ao seu país. “Elas preferem ser pobres na China do que na Coreia do Norte. A situação é má a esse ponto”, ilustra Chang.

Hyeonseo Lee concorda. “Só os loucos querem regressar”, diz a desertora tornada autora, em entrevista ao Observador, a partir de Seul. Em 2015, o seu livro de memórias “A Mulher com Sete Nomes” (ed. Planeta) foi publicado, tornando-se rapidamente um bestseller. A sua participação nas TED Talks foi vista por mais de 13 milhões de pessoas.

No livro, Lee conta como conseguiu fugir do homem a que foi vendida na China, bem como do bordel aonde foi parar e até de um gangue organizado. “Alguns leitores americanos contactavam-me e diziam ‘és como um gato, tens sete vidas’! Nós não temos essa expressão na língua coreana, não a conhecia… Tive de a googlar. E sim, sinto-me muito sortuda quando comparada com outros desertores norte-coreanos”, confessa. À semelhança de Jihyun Park, Lee também sente que tem de contar a sua história: “Talvez Deus me tenha dado uma missão, a de falar em nome dos desertores”.


Há 30 anos, enquanto crescia na Coreia do Norte, estava longe de adivinhar essa missão. Filha de um militar, pertencente a uma família de classe alta, Hyeonseo Lee nunca sentiu de perto a fome, mas esteve em contacto com muitas das outras realidades descritas pelos desertores norte-coreanos. “Até ter visto pessoas mortas nas ruas, no final dos anos 90, pensava que o meu país era o melhor do mundo. Já tinha visto execuções em público, tinha sabido de famílias inteiras que desapareciam, mas achava que era normal.”

Mas, mesmo dentro da normalidade, a adolescente Lee fervia de curiosidade. Em casa, via canais de televisão chineses clandestinos, às escondidas, fascinada: “A moda deles era muito melhor. Os cabelos pintados, as calças de ganga, os brincos…”. Na rua, Heyonseo observava ao longe as luzes e néons brilhantes da cidade chinesa de Changbai, visível da fronteira com a sua cidade Hyesan. Aos 17 anos, e com a ajuda de alguns guardas da fronteira — que conhecia devido aos bons relacionamentos da sua família —, Lee atravessou o rio Yalu no pico do inverno, quando este estava gelado. O objetivo era o de chegar a Changbai. “Só queria ver a China com os meus próprios olhos e não pela televisão”, confessa. Lee não imaginava que nunca mais regressaria ao seu país.

A vida do lado de lá da fronteira

As sete vidas de Lee na China e o seu conhecimento da língua fizeram com que, uma vez apanhada pelas autoridades, fosse tomada por chinesa e evitasse a deportação. Já Park, como tantos outros, não teve a mesma sorte. Ao todo, a República Popular da China deporta cerca de cinco mil norte-coreanos por ano, de acordo com estimativas do ministério da Unificação sul-coreano.

Hyeonseo Lee, agora com 39 anos, vive em Seul

Muito embora seja signatária do Convenção de Refugiados de 1951 das Nações Unidas, a China considera os desertores norte-coreanos como puros migrantes económicos e dá primazia ao Protocolo de Cooperação Mútua para as zonas de fronteira assinado com a Coreia do Norte em 1986. Tal não tem impedido o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) de avisar o governo chinês sobre o incumprimento dos tratados, como o fez António Guterres quando visitou o país em 2006.

“Independentemente do seu estatuto legal ou das suas intenções quando abandonam o seu país, os norte-coreanos podem ser considerados refugiados”, declarava nesse mesmo ano o International Crisis Group, num relatório onde citava o ACNUR. “Uma pessoa torna-se refugiado sur place devido às circunstâncias que ocorrem no seu país durante a sua ausência (…) ou ao resultado das suas próprias ações”, diz o organismo das Nações Unidas. Ainda esta terça-feira, a organização humanitária Human Rights Watch apelava ao executivo chinês para que não deportasse 15 norte-coreanos que estão detidos no país.

Na fronteira chinesa com a Coreia do Norte é possível ler avisos que dizem ser “proibido ajudar financeiramente, albergar ou auxiliar o estabelecimento de pessoas do país vizinho que tenham atravessado ilegalmente a fronteira” e várias ONGs dão conta das recompensas monetárias pagas aos denunciantes. É uma estratégia usada pela China, que teme ver um fluxo ainda maior de norte-coreanos a chegar ao seu país. “É exatamente como nos EUA”, explica Chung da Crossing Borders. “Há o discurso dos imigrantes que vêm tirar os trabalhos. E como a China se concentra muito no crescimento económico, tem receio de receber uma grande população de estrangeiros.”

Os norte-coreanos não se sentem bem-vindos na China e temem as deportações, razão pela qual a maior parte dos desertores opta por partir para a Coreia do Sul. Mas o El Dorado do Sul revela-se uma desilusão para muitos. “Eu pensava que éramos irmãos, mas estava errada. Eles sentem que somos um fardo, que têm de pagar mais impostos por nossa causa. E como temos ditadores loucos, eles assumem que somos todos loucos também”, desabafa Hyeonseo Lee. “Temos muita dificuldade em ajustarmo-nos, há muito preconceito. É por isso que há tanta gente a sofrer com problemas mentais.”

As estatísticas dão conta das grandes dificuldades que os norte-coreanos encontram na Coreia do Sul. A taxa de desemprego dos desertores é seis a sete vezes maior do que a média nacional e, segundo dados do ministério da Unificação, seis em cada dez consideram-se de classe baixa. Mais grave ainda, a taxa de suicídio entre desertores é muito mais elevada do que a média nacional: em 2015, chegou aos 14 %. Ao todo, um estudo de 2005 estima que um em cada três desertores revela sintomas de Stress Pós-Traumático.

Se isto os faz regressar de livre e espontânea vontade à Coreia do Norte ou não, é uma incógnita. O regime de Pyongyang, atento à situação, aproveita todos os desertores que alcança para efeitos de propaganda. Sucedem-se as conferências de imprensa onde os norte-coreanos rejeitam a vida no Sul, falando "num mundo merdoso sem amor" ou agradecendo a Kim Jong-un “a preocupação carinhosa”. Mas é impossível saber ao certo se estes ex-desertores regressaram por sua vontade ou se, por outro lado, foram pressionados por temer pela vida das suas famílias no país ou até mesmo por terem sido raptados.

Pequenas-grandes mentiras

É mais um dos aspetos relacionados com a Coreia do Norte sobre o qual não é possível ter certezas. Como todas as informações vindas de um país tão fechado, a verificação é praticamente impossível, deixando o resto do mundo à mercê de simples relatos. O mesmo acontece com as histórias dos desertores — são uma pequena janela para o mundo desconhecido da Coreia do Norte, mas até que ponto são absolutamente fiáveis?

A questão foi pela primeira vez levantada com o caso de Shin Dong-hyuk. Em 2015, o desertor alterou publicamente alguns pormenores da sua história de vida, que tinha sido contada no livro do jornalista Blaine Harden “Escape from Camp 14: One Man’s Remarkable Odyssey From North Korea to Freedom in the West” (sem edição em português), nomeadamente a identificação do campo de concentração onde tinha crescido. A correção surgiu depois de Pyongyang ter tornado público um vídeo onde aparecia o pai de Dong-hyuk, desmentindo-o nalguns pontos. O vídeo abalou a credibilidade do norte-coreano, que tinha inclusivamente servido como testemunha para um relatório das Nações Unidas sobre a Coreia do Norte. A ONU, no entanto, considerou que a correção parcial do testemunho de Dong-hyuk “não é significativa para o relatório, as conclusões ou as recomendações da comissão”.

Soldado na fronteira China-Coreia do Norte

As pequenas mentiras ou imprecisões encontradas nos relatos de desertores da Coreia do Norte podem ser explicadas por diversos motivos. Há os efeitos do trauma, que leva por vezes as vítimas a não serem totalmente coerentes nos seus relatos. Outros têm receio do impacto do seu relato nas famílias que ainda estão no país. E existe ainda aquilo que a dissidente e também autora de um livro de memórias Lucia Jang definiu como “a cultura de contar histórias” existente na Coreia do Norte, sobretudo sobre os feitos do Grande Líder, que não valoriza particularmente os factos.

“Muitas vezes vemos que as histórias deles não são completamente coerentes”, admite Chung ao Observador. “Mas isso é porque eles são sobreviventes. Sobreviveram à pior fome da História e fizeram tudo o que tinham de fazer para sobreviver. E alguns ainda o fazem, acrescentam alguns detalhes se sentirem que isso lhes pode trazer mais atenção ou dinheiro.” O responsável da Crossing Borders admite que este é um facto que perturba alguns dos seus colegas em várias ONG, mas Chung não se diz abalado: “Só me mostra que eles precisam ainda mais de ajuda, é uma coisa que me motiva”.

Mas podem estas imprecisões e exageros pôr em causa relatos inteiros de violações de direitos humanos? Para Blaine Harden, autor do livro "Escape from Camp 14", não. “É necessário algum ceticismo dos leitores que chegaram agora aos livros de memórias da Coreia do Norte. Mas, valha isto o que valha, eu acredito nestes livros. São consistentes com a recente investigação da ONU, que encontrou provas arrasadoras de crimes contra a Humanidade a serem cometidos na Coreia do Norte”, escreveu o jornalista.

O relatório do inquérito levado a cabo pelas Nações Unidas e publicado em 2014 concluiu que, ao todo, 1 em cada 185 norte-coreanos está detido num campo de concentração e que, numa população com 25 milhões, 24 não têm efetivamente liberdade de movimentos. Quanto à fome de inícios dos anos 2000, a ONU conclui que 5% da população terá morrido nesse período por falta de alimentos. Em novembro de 2014, depois de apresentado o relatório, os Estados-membros votaram (111 votos a favor, 19 contra e 55 abstenções) uma recomendação ao Conselho de Segurança para que reportasse a situação na Coreia do Norte ao Tribunal Penal Internacional por crimes contra a Humanidade.

Dois mundos ainda distantes

Numa altura em que a Coreia do Norte aparece frequentemente nas notícias, muitos desertores, como Park, pensam que é mais importante do que nunca dar a conhecer a situação dentro do país. “Temos o lado político e o lado dos desertores. Por um lado há as sanções, mas por outro nós podemos dar a conhecer aos norte-coreanos o mundo exterior”, declara Jihyun Park.

Algumas organizações, como os Combatentes por uma Coreia do Norte Livre, liderada pelo desertor Park Sang-hak, organizam ações para levar da Coreia do Sul para a do Norte material como DVDs, rádios, pens USB e folhetos de propaganda, para que os norte-coreanos possam ter contacto com informação vinda de fora. Na zona de fronteira com a China, o contrabando de materiais é ainda mais fácil, como conta Demick no seu livro: “As mercadorias chinesas entravam na Coreia do Norte — não só comida e vestuário, mas também livros, rádios, revistas e até Bíblias, que eram ilegais. Os DVD prensados pelas fábricas de cópias ilegais chinesas eram pequenos e baratos. Um contrabandista podia transportar até mil DVD numa pequena arca, com uma camada de cigarros em cima como suborno para os guardas fronteiriços. (…) Os mais vendidos eram Titanic, Con Air e A Testemunha. Ainda mais populares eram os filmes e as novelas melodramáticas e melosas sul-coreanas”.


Os desertores podem não concordar sobre qual a melhor forma de a comunidade internacional lidar com o regime norte-coreano — Park, por exemplo, é algo crítica da retórica dura de Donald Trump, ao contrário de Lee —, mas não duvidam de que esta estratégia de aproximação do mundo exterior aos norte-coreanos pode ser vencedora. “De 1998 para 2004 notei muitas diferenças na Coreia do Norte”, ilustra Park, comparando o ano em que abandonou o país pela primeira vez e a altura em que regressou por deportação. “Esta nova geração tem mais noção do mundo exterior e com a mudança de geração talvez o regime também mude.” Lee, por seu lado, crê que é um grande desafio e que levará o seu tempo, mas não tem dúvidas em afirmar que Kim Jong-un será “o último ditador do país”.

O contacto com música ou séries estrangeiras dificilmente levará a um aumento da consciência política, como alertou a professora de Estudos Coreanos Kim Sung-kyung num artigo do jornal "Ther Guardian", mas pode levantar algumas questões. Há relatos de norte-coreanos que se disseram impressionados com os folhetos de propaganda vindos do Sul, não pelo seu conteúdo, mas pela qualidade do papel. Para Sung-kyung, o facto de estas experiências serem feitas em segredo pode ser igualmente relevante: “Pode trazer-lhes um sentimento de liberdade, que me parece mais relevante. Pode criar uma consciência dos pares. É uma forma de minar o regime no dia-a-dia”.

Para muitos desertores, a nova geração de norte-coreanos pode ser determinante

É também uma ponte entre dois mundos ainda tão distantes, que conhecem tão pouco um do outro. A Coreia do Norte é para muitos um lugar distante do qual se sabe pouco, caricaturado como um regime governado por loucos com uma população vítima de lavagem cerebral. As histórias dos desertores, mais ou menos fidedignas, ajudam a espalhar alguma luz sobre o ponto escuro no mapa que é a Coreia do Norte.

Do lado inverso, estes norte-coreanos vão navegando um mundo incerto e tão diferente daquele onde cresceram — mas para o qual não desejam regressar. “Só quando cheguei ao Reino Unido é que aprendi a canalizar as minhas emoções”, admite Park, recordando uma refeição em família, já em 2010, onde se sentiu pela primeira vez totalmente feliz. “Lembro-me também da primeira vez que cheguei ao país e me disseram ‘bem-vinda’. Chorei muito. ‘Bem-vinda’ é uma palavra muito importante, porque nunca tinha sentido isso antes.”

Jihyun Park refez a sua vida entretanto em Bury. Vive numa casa com terraço com o marido, um norte-coreano que trabalha num restaurante chinês, e com os filhos (teve outras duas crianças entretanto). Trabalha numa organização pelos direitos humanos na Coreia do Norte e dá aulas de línguas online. Tem uma vida aparentemente normal, organizada, centrada à volta da sua família. É nisso que ela se concentra agora, em olhar em frente. A única exceção é quando se deita: em sonhos, Park ainda vê o seu pai, sentado na sala de estar.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Além da recessão, mais problemas aguardam a Rússia

Stratfor WorldviewAvaliações
1 de junho de 2017 | 09:30 GMT

Destaques da previsão

  • À medida que a economia russa puxa lentamente da recessão, os preços baixos do petróleo irá mantê-lo estagnado para os próximos anos.
  • No entanto, a recuperação e o retorno do investimento estrangeiro, irá aliviar algumas das preocupações do Kremlin sobre as sanções económicas contra o país.
  • O governo russo, entretanto, ficará cada vez mais preocupado com as dificuldades econômicas do povo à medida que as eleições governamentais e presidenciais se aproximam
A economia russa está se recuperando, lenta mas seguramente. Depois de quase três anos de recessão causada por baixos preços do petróleo, a diminuição do investimento estrangeiro e as sanções, as fortunas do país melhoraram no primeiro semestre deste ano. 
O governo russo atualizou sua previsão para o crescimento do produto interno bruto para 2% com base nos preços atuais do petróleo, um pouco mais de meio por cento maior do que a projeção do Fundo Monetário Internacional para o país. E desde que o Kremlin elaborou seu orçamento federal, assumindo que os preços das exportações de petróleo russo seriam de US $ 40 por barril - cerca de US $ 13 abaixo do preço médio deste ano - o governo agora tem um superávit nas mãos.

Mas isso não significa que os problemas econômicos do país estão por trás disso. Em relação à sua última convalescença após a recessão de 2009, que foi mais profunda, a atual recuperação da economia russa é muito menos robusta, em grande parte por causa dos baixos preços do petróleo. (O país perde uma receita de US $ 2 bilhões por cada queda de dólares em preços do petróleo). Os números oficiais do governo, além disso, devem ser tomados com um grão de sal desde que o Kremlin tem mexido com suas estatísticas. A unidade estatística estadual, Rosstat, mudou sua metodologia recentemente para amplificar o efeito do complexo militar-industrial quando o Kremlin embarcou em uma compra de armas. Então, em março, o presidente Vladimir Putin moveu Rosstat, uma vez amplamente protegido da política, sob a autoridade do ministro da economia. O chefe da agência de estatísticas afirma que um funcionário do governo pediu-lhe para ajustar os dados sobre a economia para dar a aparência de que a inflação havia caído. De qualquer forma, a recessão é apenas a primeira em uma ladainha de problemas enfrentados pelo país.


Sinais de esperança

Um sinal de que a economia está se recuperando é que o rublo se valorizou e estabilizada. A moeda começou sua queda de dois anos em julho de 2014 depois que os Estados Unidos e a União Européia impuseram sanções à Rússia. A queda dos preços do petróleo agravou a fraqueza da moeda no final desse ano, e o Banco Central da Rússia mudou-se para colocar o rublo em um flutuador. O Kremlin gastou US $ 30 bilhões para defender a moeda em outubro de 2014 sozinho. Mas desde o início de 2016, quando a taxa de câmbio alcançou 85 rublos no dólar americano, a moeda russa apreciou. A taxa de câmbio é atualmente de cerca de 50 ou 60 rublos para o dólar - confortável o suficiente para o Kremlin.

Uma parte do aumento do rublo deve à recuperação em curso em várias indústrias russas. O Kremlin bombeou mais de US $ 5 bilhões em 199 grandes setores entre o final de 2015 e início de 2016. Os esforços já foram pagos no complexo militar-industrial e na indústria agrícola, que cresceu em 2016. O automóvel, a aviação, o transporte e a máquina Os setores de construção, que fornecem a maior parte do transporte, infra-estrutura e empregos do país, juntamente com 20 por cento do seu PIB, deverão começar a crescer novamente este ano também. Além do seu apoio financeiro, as políticas isolacionistas de Moscou também ajudaram a revigorar suas indústrias. As contra-sanções sobre as importações de alimentos da União Européia ajudaram a impulsionar a agricultura russa em 2016; A produção de grãos atingiu 119 toneladas métricas nesse ano, tornando-se o segundo setor mais lucrativo do país após a energia. Hoje, a Rússia importa menos de 20% de seus produtos alimentares, contra 70% quando Putin assumiu o cargo há 17 anos. As substituições de importação de produtos industriais e de alta tecnologia ajudaram a reduzir a dependência da Rússia de produtos estrangeiros também.


Investimento no país, por sua vez, voltou a seus níveis pré-crise. O investimento estrangeiro direto (IDE) na economia russa cresceu 62% em 2016 em relação ao ano anterior, atingindo US $ 19 bilhões de acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). O crescimento é um pouco enganador, no entanto, porque uma grande parcela do total veio de um único acordo: a venda de uma participação de 19,5% na empresa estatal de petróleo Rosneft para a Glencore suíça e o fundo de riqueza soberana do Qatar. A maior parte do produto da transação de US $ 11 bilhões entrou nos cofres do estado. O setor industrial foi responsável por grande parte do restante do investimento directo estrangeiro na Rússia. Muitas firmas alemãs estão voltando a investir no país; O jornal de negócios alemão Handelsblatt relata que o comércio entre os dois estados aumentou 37 por cento até agora este ano, em comparação com 2016. Além disso, a Alemanha parece estar avançando com planos para mover grandes fábricas para a Rússia.


A recuperação Sancionada?

E assim, a truque estatística do Kremlin de lado, a Rússia está se retirando da sua recessão. Conforme o faz, a medida em que as sanções internacionais contra elas contribuíram para a sua situação econômica tornar-se-ão mais claras. O FMI calculou que as medidas punitivas reduziram o PIB real da Rússia entre 1% e 1,5% desde 2014 e que causariam uma perda cumulativa de 9% na próxima década, caso elas permaneçam em vigor. As sanções se dividem em duas categorias principais: medidas que visam pessoal e de medidas orientadas para setores específicos da economia russa. Quando as sanções sectoriais mais duras foram introduzidas em 2014 - impedindo as instituições ocidentais de emprestar, investir ou colaborar com empresas de certas indústrias russas, como os setores de energia e industrial - o rublo teve as consequências imediatas. O resto do país entrou em recessão apenas quando os preços do petróleo caíram.

Agora que a moeda está se recuperando apesar das sanções, parece que as medidas podem ter atingido o limite de sua eficácia. As sanções, por exemplo, não desencorajaram o investimento estrangeiro na Rússia, tanto quanto o ambiente de negócios do país. A Rússia carece de uma cultura jurídica sólida ou de direitos de propriedade claros e, ao mesmo tempo, sofre de altos níveis de corrupção, assédio e regulação no investimento estrangeiro. O efeito principal das sanções, por enquanto, é que os bancos russos devem suportar o ônus de empréstimos para os setores visados nas medidas. Mas, mesmo que não tenha sido totalmente ruim para o país. Sem a opção de reverter suas dívidas externas, muitas empresas e as agências governamentais pagaram-na mais rapidamente por um resultado (provavelmente não intencionado). A dívida externa da Rússia caiu para US $ 75 bilhões até o final de 2015, metade do que era antes das sanções serem impostas.

Além disso, embora o país ainda está carente de investimento estrangeiro e tecnologia, uma brecha nas sanções da UE sobre o setor de energia da Rússia lhe permitiu as empresas europeias para continuar investindo em projetos fracking e empreendimentos de perfuração árticas. Se uma empresa europeia tivesse contratos em vigor antes de as sanções entrarem em vigor, ela pode continuar seu trabalho na Rússia. A Statoil da Noruega e a italiana Eni planejam retomar suas atividades no país no final deste ano neste tecnicismo. Os projetos que caem no vazio, no entanto, provavelmente produzirão apenas o petróleo suficiente para compensar o declínio natural dos poços existentes na Rússia a longo prazo, em vez de aumentar a produção do país. E porque as sanções dos EUA não incluem tal renúncia, a Exxon Mobil não conseguiu continuar fazendo negócios na Rússia.

Ainda assim, os regimes de sanções não são suficientes para persuadir Moscou a dispensar seus objetivos estratégicos atuais no exterior. As medidas estão acelerando a decadência da economia russa, embora ligeiramente. (Os problemas estruturais subjacentes da economia são principalmente responsáveis pelo seu próprio declínio, juntamente com os baixos preços do petróleo e o investimento médio). Consequentemente, o Kremlin provavelmente terá margem de manobra nos próximos anos para perseguir seus objetivos de política externa na Ucrânia, Síria e concursos eleitorais o mundo acabou. Se o investimento em declínio começar a prejudicar as principais empresas de energia do país, porém, o governo talvez precise repensar sua estratégia ou enfrentar a ira das elites russas, incluindo o chefe da Rosneft, Igor Sechin.

O que vem a seguir

E os problemas financeiros do país continuarão independentemente. Embora a Rússia se tenha confundido com a pior recessão, correu muitas das suas reservas financeiras no processo. O Fundo de Reserva, que pretende manter um saldo equivalente a 10% do PIB do país, detém apenas US $ 16 bilhões hoje, a metade da metade desde 2014 e em dois terços desde 2009. O ministro das Finanças, Anton Siluanov, anunciou recentemente que o Kremlin esgotará esse fundo este ano para complementar seu orçamento e terá então a torneira para o Fundo Nacional de riqueza, uma conta destinada a cobrir o pagamento de pensões. (O National Wealth Fund atualmente detém US $ 73 bilhões, abaixo de US $ 88 bilhões antes da crise.) Siluanov afirmou que as receitas de petróleo e gás deste ano reabriam o Fundo de Reserva em 2018, mas o governo pode acabar esgotando suas reservas Se os preços do petróleo caírem abaixo de US $ 40 por barril

Suas garantias, além disso, oferecerão pouca consolação para os russos preocupados de que o Kremlin esteja mergulhando em seu último fundo de emergência. O povo russo ainda está com o peso dos problemas econômicos de seu país. Os salários mensais caíram nos últimos dois anos para menos de US $ 450 em média - menor que o salário médio na China, Sérvia, Polônia ou Romênia. O número de pessoas que vivem abaixo do nível de pobreza, US $ 177 por mês, saltou de 16 milhões em 2014 para 20 milhões no ano passado, de acordo com Rosstat. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, prometeu 10 de maio para recuperar os salários do país em níveis de subsistência, mas o processo demoraria até 2019. Entretanto, as estatísticas oficiais mostram que 20% da força de trabalho está empregada no setor informal e estimativas independentes Coloque a proporção mais perto de 40%. Embora os empregos informais tenham mantido a taxa de desemprego baixa - em 6%, pela conta do Kremlin - as pessoas empregadas nesta capacidade não pagam impostos, nem os empregadores. O arranjo, por sua vez, priva os governos federal e regional das receitas tão necessárias.

À medida que seus dificuldades financeiras se agravaram, os russos levaram as ruas em protesto. O Kremlin está preocupado com o facto de os manifestantes canalizarem a sua insatisfação através das suas votações nas eleições governamentais que deverão ter lugar em 16 regiões em Setembro. O governo ainda cancelou seus planos para lançar uma campanha de propaganda destinada a incentivar a participação dos eleitores pelo medo de que os grupos de oposição - desde os apoiantes de Alexei Navalny até o Partido Comunista - pudessem vencer a Rússia Unida de Putin. O presidente e o partido no poder enfrentarão um teste ainda maior em março de 2018, quando o país realizará as próximas eleições presidenciais. Putin espera-se que funcione para um quarto mandato, e uma recente pesquisa da Levada questiona se ele alcançará o limite de 50 por cento exigido para evitar uma segunda volta. O presidente em exercício provavelmente venceria seu rival se as eleições fossem para uma votação de segunda rodada. Ainda assim, a própria possibilidade de um segundo turno é um testemunho do crescente descontentamento do eleitorado.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Um novo mundo bravo para o Kremlin

Stratfor WorldviewReflexões
6 de abril de 2017 | 23:50 GMT












Todo país enfrenta mudanças geracionais. Evoluções em tecnologia, cultura, costumes sociais e assuntos globais podem deixar um fosso entre jovens e velhos que nem podem facilmente se aproximar. Na Rússia, esse golfo é especialmente vasto. A partir deste ano, 27 por cento dos russos nasceram após a queda da União Soviética, e esse número passará para quase 40% na próxima década. A geração em ascensão nunca foi soviética. A maioria deles, além disso, é muito jovem para se lembrar dos anos 1990 tumultuados, uma década de guerra, crise financeira e desordem política. Ao contrário das gerações mais velhas, eles não se lembram das promessas do presidente Vladimir Putin de salvar a Rússia ou as medidas que ele tomou para estabilizar o país após o colapso pós-soviético. Na verdade, nunca conheceram a vida sem ele. Para Putin, a situação coloca um desafio desconhecido.

Pouco depois que o líder de longa data chegou ao poder, sua administração lançou uma série de iniciativas para atrair jovens. Grandes grupos de jovens, como Nashi, formaram, promovendo o nacionalismo e prescrevendo apoio ao presidente como dever cívico de todos os russos. O fundamento ideológico que essas organizações estabeleceram sustentou a popularidade da administração de Putin por quase duas décadas de estabilidade política e prosperidade econômica. Após cerca de uma década, porém, os grupos falharam. As gerações mais novas não levaram para eles como os seus predecessores tinham. Tendo passado seus anos formativos em um país estável e fortalecido, eles não tinham a experiência de viver em um estado quebrado. Hoje, grande parte da população juvenil da Rússia ainda está jogando com suas próprias regras, para o desânimo do Kremlin.

Nos últimos dois fins de semana, as pessoas saíram às ruas em massa em toda a Rússia para protestar contra a corrupção do governo, a economia estagnada e aumento dos níveis de pobreza. Um grande número de manifestantes eram pessoas em seus 20 anos. O importante componente juvenil do movimento levou vários membros do governo a demitir os protestos como um "birra adolescente". E nos dias que se seguiram, surgiram vídeos e histórias de professores repreendendo seus alunos por participar das manifestações. Um professor da cidade central da Sibéria de Tomsk foi gravado chamando seus alunos antipatrióticos, ignorantes, fascistas liberais e lacaios anglo-saxões.

composição demográfica dos protestos não é menos preocupante para o Kremlin. Apesar da oposição dos pesos pesados Alexei Navalny inicialmente organizou as manifestações, o movimento rapidamente se espalhou para além da sua base de apoio. Os grupos de oposição tradicionais da Rússia não foram responsáveis por organizar os manifestantes mais jovens; Em vez disso, eles representam um movimento de base que reagiu em toda a Rússia nas mídias sociais. A ascensão das mídias sociais nas gerações mais jovens apresenta um par de problemas para o Kremlin. Por um lado, como os protestos recentes têm demonstrado, a tecnologia é uma ferramenta poderosa para organizar manifestações de massa. Por outro lado, ele supera as mídias tradicionais, em particular a televisão. Os relatórios surgiram na quarta-feira que o governo russo está pensando em revisar seus canais de notícias de televisão porque cada vez menos jovens estão se sinalizando para ouvir a mensagem do Kremlin. Uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisas independente Levada constatou que menos de metade dos russos entre 18 e 25 de confiança televisão estatal, em comparação com mais de 73 por cento dos russos mais de 55 anos.

O Kremlin já começou a reprimir a mídia social desde que o governo aprovou uma série de leis draconianas no ano passado, incluindo uma medida exigindo que todos os grupos online na Rússia a mudar seus servidores para o território russo. Algumas plataformas de redes sociais, como Twitter e Facebook, se recusaram a aderir às novas leis. Mas outros estão começando a cumprir. Dois dias após o protesto de 2 de abril, a plataforma popular de blogs LiveJournal lançou um novo acordo de usuário que poderia permitir que os serviços de segurança russos acessassem a informação dos usuários. Relatórios também surgiram que o governo está censurando posts no YouTube e no serviço de rede social russa VKontakte. Um legislador russo propôs mesmo a proibição de todos os jovens das mídias sociais. Como solução alternativa e mais realista, o Kremlin anunciou recentemente o lançamento de um programa de "educação moral e patriótica" para jovens online.

Ainda assim, não está claro o quanto o Kremlin pode esperar influenciar uma geração que é tão utilizada em mensagens além de seu controle. A administração de Putin unificou o povo russo por trás de um plano para acabar com o caos reinado na Rússia na década de 1990 e depois com a promessa de restaurar a influência internacional do país. As gerações mais novas esperam um país forte e estável, sem conhecer nenhuma outra versão. Mas agora, a atual estagnação econômica, juntamente com os contínuos escândalos da corrupção governamental, está semeando sementes de descontentamento entre os jovens do país - com a ajuda da internet. Mais do que abordar essas preocupações, o verdadeiro desafio para o Kremlin será encontrar uma maneira de se relacionar com a população russa pós-soviética, que está aumentando cada ano.

Para a Rússia, Poder de Putin está perdendo um pouco do seu brilho

Stratfor WorldviewReflexões
29 de junho de 2017 | 11:02 GMT












Apesar de uma demonstração de força e uma ofensiva de charme, o governo do presidente russo, Vladimir Putin está começando a mostrar sua idade. A Rússia enfrenta um perigoso movimento de protesto contra o sistema de Putin, e ele respondeu com agressões pesadas e inúmeras aparições públicas. A mensagem do Kremlin é clara: Putin é um líder forte e um homem do povo. Mas a mensagem está começando a soar velho, e um ajuste de contas pode ser espreitar acima do horizonte.

Mesmo antes de sua ascensão ao poder, Putin e suas elites estiveram moldando a história por trás do líder russo. Nessa narrativa, enquanto sob o presidente Boris Yeltsin, Putin empurrou um pacote rebelde de políticos diversos para ser o homem para estabilizar um país no caos. Como o primeiro chefe do Serviço Federal de Segurança e, em seguida, o primeiro-ministro, Putin freou regiões dissidentes, e com um aumento de tropas, ele reprimiu insurgência no Cáucaso. Passando para a presidência em 2000, ele consolidou o poder ao expulsar os oligarcas não cumpridores e reivindicar ativos estratégicos e lucrativos para o estado. Putin começou a reconstruir e reorganizar os serviços militares e de segurança, transformando-os em ferramentas-chave e decisores. Ele purgado o sistema político de partidos desleais e políticos. No geral, durante o primeiro mandato de Putin como presidente, a Rússia emergiu como um país mais forte e mais estável, e sua estima aumentou nos olhos das pessoas. A mensagem do Kremlin era clara: Putin salvou a Rússia.

Agora, apoiado por um sistema que ele criou e com o apoio da grande maioria do povo, Putin começou a flexionar o músculo da Rússia internacionalmente. Em 2006, ele cortou energia para a Ucrânia e a Europa. Em 2007, Putin deu um discurso agressivo na Conferência de Segurança de Munique na Alemanha, condenando o domínio global dos EUA e seu "uso excessivo da força". Logo depois, a Rússia retirou-se do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa, e no ano seguinte, a Rússia invadiu a Geórgia. O Kremlin estava enviando a mensagem de que Putin havia restaurado o poder e a posição da Rússia no mundo.

Mas o retorno da Rússia ao cenário mundial foi encontrado com um forte impulso do Ocidente e de muitos ex-estados soviéticos. O Oeste reprimiu a intromissão na Rússia; Levantamentos e conflitos espalhados na Ucrânia; Os Estados Unidos e a União Européia impuseram sanções; E a OTAN construiu suas forças nas fronteiras russas. O Kremlin promoveu várias mensagens nacionalistas e patriotas em resposta, reunindo o povo russo atrás de Putin, que era visto como a defesa da pátria. Este patriotismo culminou com a anexação da Rússia da Crimeia da Ucrânia.

A mensagem está fina

Agora a narrativa começou a desmoronar, já que o Kremlin e Putin enfrentam muitas crises. À medida que o Ocidente empurrava a pressão econômica, a Rússia caiu em uma recessão devido aos baixos preços do petróleo. As elites russas acreditam que estão sofrendo com menos riqueza e menos oportunidades para o consumo conspícuo. Uma torta encolhida levou a apanhar poder e lutas por dinheiro e recursos, colocando Putin em uma posição perigosa com seus leais quando ele escolhe quem consegue ou sobrevive. E a recessão afetou o povo russo mais que o estado e suas elites. O desemprego e o não pagamento dos salários estão aumentando, assim como a taxa de pobreza. Com contadores, o custo dos alimentos aumentou. A maioria dos russos de baixa renda e média gastam metade do seu rendimento nas refeições.

Durante as anteriores crises econômicas e sociais sob Putin, o Kremlin instou o país a lembrar a turbulência da década de 1990 sob Yeltsin - uma perspectiva assustadora para os russos - e ver que a última crise não era tão ruim. Mas a mensagem pode ter funcionado porque a Rússia viu um volume de negócios geracional. Cerca de um quarto dos russos nasceram após o colapso da União Soviética, e aqueles que entram na adolescência e no início dos anos 20 só conheciam Putin como seu líder. As memórias dos caóticos anos 1990 e a idéia de Putin como salvador estão começando a desaparecer.

Enquanto a velha narrativa soa oca para grande parte desta nova geração, a maioria desses jovens não são anti-Putin, ou descontroladamente liberal, mas eles querem um sistema político diverso, responsivo. O líder da oposição, Alexei Navalny, capitalizou o crescente e desapontado movimento juvenil com uma mensagem de anti corrupção - uma causa de guarda-chuva que encapsula a reforma das estruturas políticas, a limpeza do governo, o apoio econômico e a legitimação do sistema eleitoral. Navalny está criando uma plataforma para reunir esta nova geração, que foram atraídos pelas dezenas de milhares de pessoas a juntar-se protestos em 12 de junho, em cerca de 150 cidades. A maioria dos manifestantes foram jovens despertados pelas mídias sociais, que o Kremlin tem lutado para controlar.

Poder e Relações Públicas

Em resposta a esta crescente resistência, a resposta do Kremlin tem sido duplo. Primeiro, tornou-se criativo com a imagem pública de Putin. As percepções do presidente russo foram hábilmente giradas nas últimas semanas - não só para o povo russo, mas também para o mundo mais amplo. Em segundo lugar, o Kremlin tem mantido um estrangulamento no poder.
 
Para fazê-lo, Putin continua a mudar o governo da Rússia para um modelo profundamente autocrático, dependente do seu poder pessoal. Ele criou sua própria guarda de cerca de 400.000 ultra-leais, que respondem diretamente a ele. A Duma do Estado aprovou leis draconianas que consideram os dissidentes serem terroristas e que regulamentavelmente as mídias sociais e as comunicações. Putin derrubou algumas das elites mais poderosas do Kremlin. E quase mil pessoas foram detidas em Moscou e São Petersburgo durante os protestos recentes. A Rússia também não está recuando de seu tenso confronto com o Ocidente.
O Kremlin ainda está apoiando incursões militares na Síria e na Ucrânia, a construção de suas forças armadas ao longo de suas fronteiras, continuando a espalhar propaganda e de desinformação, e estragar as negociações em pontos quentes como a Coreia do Norte.

Simultaneamente, Putin passou por uma turnê de publicidade não convencional, tentando moldar uma visão mais positiva e confiável de si mesmo, apenas alguns meses antes de enfrentar a reeleição. Em 10 de maio, ele convidou repórteres ocidentais para vê-lo jogar hóquei no gelo. Antes de bater no gelo, ele deu uma entrevista súbita e rara para a CBS News, rindo das acusações de intromissão eleitoral e envolvimento na demissão do diretor James Comey do FBI. Esse tremor de mídia improvisado veio ao mesmo tempo que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e o embaixador dos Estados Unidos, Sergei Kislyak, estavam se reunindo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, apesar da enxurrada de acusações de intromissão russa na eleição dos EUA. Os diplomatas russos eram todos sorrisos e calorosos. Além disso, a mídia estatal russa aparentemente tinha o único fotógrafo na sala, o que significa que a Rússia poderia moldar as percepções da reunião.

A turnê da mídia ocidental de Putin continuou algumas semanas depois. Ao final do maior fórum econômico da Rússia em São Petersburgo no início de junho, ele entregou uma entrevista de televisão rara à Megyn Kelly da NBC. Para muitos, Putin saiu como encantador, colocando as razões pelas quais a Rússia não era o vilão que estava feito para estar na imprensa dos EUA.

Mas seu maior palco era um documentário de quatro partes, do diretor Oliver Stone EUA, apresentando várias entrevistas com Putin durante mais de três anos. "As entrevistas de Putin", que foram transmitidas nos Estados Unidos há duas semanas e na Rússia na semana passada, eram uma aparência rara atrás do véu de Putin. Normalmente, suas vidas pessoais e profissionais estão fora dos limites para consultas da mídia ou pontos de vista, exceto para aqueles intimamente orquestrada pelo próprio Putin. Stone tinha acesso profundo a Putin, embora nos termos do presidente. Putin habilmente percorreu a história da Guerra Fria do ponto de vista de Moscou, deslizando em dicas de agressão EUA contra os soviéticos. Ao se referir aos Estados Unidos, ele usou a palavra "parceiro", mostrando o desejo de Moscou de trabalhar com Washington não disposto.

O documentário foi polvilhado com Putin dirigindo-se, exercitando, jogando hóquei, cavalgando cavalos, falando sobre seus netos e piedade de pedra - com efeito, humanizando um homem considerado entre a elite rica e corrupta do mundo. O documentário também deu uma olhada nos escritórios de Putin (um dos quais pertencia a Josef Stalin) e sala de situação. Durante as discussões, Putin tentou colocar a Rússia na história global e mostrar que o país e suas pessoas têm um papel necessário no mundo.

A história se repete

Ao equilibrar sua mensagem líder forte com uma narrativa encantadora e aberta, Putin pretende prolongar sua administração e seu controle sobre o país. Ele não está preparado para desistir do poder em breve, e não há um plano de sucessão à vista. Mas as mensagens de duelo também dão ao Kremlin um espaço de mudança para mudar as táticas quando necessário. E o Kremlin não é cego para os desafios que surgiram em torno dele: uma mudança geracional, um crescente movimento de protesto, lutas entre a elite do Kremlin, uma economia estagnada e a pressão ocidental.

A Rússia enfrentou problemas semelhantes em 1905 sob o czar Nicolau II e durante a era do secretário geral Leonid Brezhnev de 1964 a 1982. Ambos os governos mantiveram o poder durante uma década após suas crises, vacilando entre as medidas de repressão e as concessões. Mas em ambos os casos, o Kremlin ficou sem opções, forçando as reformas, que quebraram o sistema. Por enquanto, esses desafios não são suficientes para quebrar a administração de Putin, mas uma tempestade está se preparando.