segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Microscópio -  26 de Dezembro de 2016
Por José Manuel Fernandes, Editor
Começando pelas do fim de um império, o soviético, que acabou formalmente há exactamente 25 anos, num 25 de Dezembro em que Gorbatchov anunciou a sua renúncia à Presidência de um país que já não existia.

Isso mesmo recorda no Observador José Milhazes, que viveu esses acontecimentos por dentro, em A bandeira foi arreada, mas não para todos. 
É um texto que recapitula o que então se passou mas também aborda a actual realidade da Rússia, onde a nostalgia do império ainda marca os dias: “Segundo um estudo de opinião pública do Levada-Tzentr, publicado a 5 de dezembro deste ano, é verdade que mais de metade dos inquiridos lamenta o fim da URSS (56%), mas também é de salientar que apenas 12% defendem o seu restabelecimento.”

Na verdade, como se escreve num dossier especial da Foreign Policy, The Soviet Union Is Gone, But It’s Still Collapsing. 
Esse trabalho abre precisamente com textos de cinco especialistas que procuram fixar algumas lições desse processo, nomeadamente a de que a morte de um império nunca é súbita: como escreve Serhii Plokhy, professor em Harvard, “The redrawing of post-imperial borders to reflect the importance of nationality, language, and culture has generally come about as a result of conflicts and wars, some of which went on for decades, if not centuries. (…) The ongoing war in eastern Ukraine is not the only reminder that the process of Soviet disintegration is still incomplete. Other such reminders are the frozen or semi-frozen conflicts in Transnistria, Abkhazia, South Ossetia, Nagorno-Karabakh, and the semi-independent state of Chechnya.”

O império, de resto, ao desaparecer deixou órfãs algumas das suas nacionalidades, como recorda o jornalista e investigador Ahmed Rashid, no Diário de Notícias, em 25 anos atrás a Ásia central tornou-se relutantemente independente: “Os líderes da Ásia Central não queriam nada com a independência. Eles temiam não serem capazes de governar Estados independentes e não terem as capacidades necessárias para gerir os seus próprios assuntos - algo que não faziam desde a revolução de 1917.” 
Paradoxal, mas revelador e pesado de consequências, pois “Os seus sistemas políticos nunca se desenvolveram depois de 1991 e, com exceção do Quirguizistão, continuam a ser ditaduras de partido único. Os seus sistemas políticos moribundos e a recusa da mudança mergulharam as populações em desespero e levaram a um êxodo maciço de pessoas.”

O que se passou nessas repúblicas, onde por regra os antigos chefes locais do Partido Comunista se fizeram eleger para a presidências dos novos estados, representa uma das consequências indesejadas de um processo que Michail Gorbatchov desencadeou mas depois não controlou. 
É por isso interessante ler Could Mikhail Gorbachev Have Saved the Soviet Union?, um ensaio de Chris Miller de novo na Foreign Policy e onde este especialista compara a forma como o último líder soviético promoveu as reformas a que chamou “perestroika” com aquelas que, ao mesmo tempo, Deng Xiaoping estava a promover noutro imenso império comunista, a China. 
Deixo-vos a sua conclusão: “The reason why Gorbachev lost out is not because the Soviet economy was unreformable. China’s example proved that the transition from a centrally planned to a market economy was possible. Rather, the Soviet Union collapsed because vast political power was entrusted to groups that had every reason to sabotage the efforts to resolve the country’s decades-long financial dilemmas.”

Ora foram precisamente estas dificuldades, assim como a discussão do processo que acabaria por levar ao fim do “país dos sovietes” fundado por Lenine em 1917, que esteve à mesa do último Conversas à Quinta. 
Em A URSS acabou há 25 anos. Obrigado Gorbachov? debati com Jaime Nogueira Pinto e Jaime Gama o porquê da queda de um império que, dez anos antes, ainda parecia capaz de dominar o mundo e triunfar na Guerra Fria. 
Foi uma conversa informada e, para mais, animada pela evocação de memórias pessoais de quem, nesses tempos, vivia por dentro a política internacional.

A fechar este bloco, um texto de alguém que também conheceu este mundo por dentro, pois foi militante comunista. 
Falo de Antonio Elorza, um académico espanhol que, no El Pais, em El fin del comunismo, é lapidar: “Resulta preciso volver a Lenin para entender hasta qué punto era irreformable el comunismo soviético, basado en la eliminación de la democracia y de todo pluralismo mediante la violencia de Estado. Lo probó el fracaso de los intentos finales del propio Lenin por hacer del partido “una gota en el mar del pueblo”. Su dictadura del partido-Estado desembocaba inevitablemente en Stalin.”
                                       

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