domingo, 24 de julho de 2016

Ilusão da Reforma de Putin



POLÍTICA
Nina L. Khrushcheva
15 de junho de 2016

                                                                                                                         MOSCOVO - Em novembro passado, quando o desempenho do artista Pyotr Pavlensky ateou fogo à porta central de Lubyanka de Moscovo - a sede do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) e anteriormente do serviço de segurança da União Soviética, a KGB - o estado acusou-o de destruir seu "património cultural".

Aparentemente, o interrogatório brutal de artistas de renome mundial, desde o poeta Osip Mandelstam ao diretor de teatro Vsevolod Meyerhold, equivale a um património digno de protecção mais forte do estado.

Claro, a realidade é que a Lubyanka tem sido um instrumento da destruição do património cultural da Rússia.
Mas, sob o presidente Vladimir Putin - ele próprio um ex-aluno da KGB - o governo da Rússia não está interessada na realidade.
Ele prefere dupla fala Orwelliana, que, atestando habilidades de propaganda do regime, é mais perverso ainda do que o praticado nos tempos soviéticos - e produz um pensamento duplo aterrorizante entre os cidadãos da Rússia.

Sob Joseph Stalin, realizações genuínas - incluindo a industrialização e a vitória na Segunda Guerra Mundial - foram jogadas na batalha ideológica contra o capitalismo, mesmo que Mandelstam, Meyerhold, e milhões de outras pessoas pereceram nas mãos da polícia secreta.
Mas Putin carece de qualquer dessas vitórias.
A vitória oca que era a anexação da Criméia, enquanto popular, empalidece em comparação com maiores feitos dos seus antecessores, por isso ele foi forçado a ir além de distração para a distorção flagrante, alegando que o Ocidente está deliberadamente impedindo o sucesso da Rússia.

O sucesso de Putin em convencer o público russo de tudo, desde a a sua própria apatidão para hóquei no gelo para a existência de parcelas ocidentais anti-russas reflete seu verdadeiro talento: como qualquer bom agente do KGB, ele é um mestre de fachadas.
Mais óbvio, porque o Kremlin controla todas as principais fontes de notícias, os russos ouvem a versão dos acontecimentos - se a revolução na Ucrânia, protestos da oposição em Moscovo, ou a campanha militar na Síria - que Putin quer que eles oiçam.

Mesmo os movimentos que parecem contrários aos objetivos de Putin - a saber, deixando a Internet essencialmente livre - são fiadas a seu favor.
Usando o seu característico duplo discurso , Putin conseguiu em grande parte para compensar a crítica e o debate que os russos encontram online, citando-o como evidência de que ele é um reformador.

O movimento mais recente de Putin para reforçar a sua fachada pró-reforma foi trazer de volta para o Kremlin, Alexei Kudrin, um ex-ministro das Finanças, conhecido por suas visões liberais, o apoio à modernização e criticismo ocasional do presidente.
Colocar Kudrin responsável do centro da Rússia para a Investigação Estratégica avança a afirmação de Putin de que ele está preparado para liderar o esforço de modernização económica que a Rússia tanto necessita.
É claro, é o governo de Putin, que, com a ajuda do complexo militar-industrial, foi sufocando a economia da Rússia.

Dada uma contradição tão flagrante, alguém poderia perguntar por fachada da liderança esclarecida e eficaz de Putin não desmoronar.
A explicação pode ser encontrada em um quadro de avisos na rodovia Rublevsky levando a residência de campo de Putin, onde se lê: "A Rússia é uma força para a paz, a última esperança de Deus na Terra."
Pago por uma empresa privada para agradar o Kremlin, o cartaz destaca a aliança de Putin com a Igreja ultra-conservadora Ortodoxa Russa, habilitando-o a fundir a fé religiosa, patriotismo e confiança cega no estado.
Isto, juntamente com a ânsia das empresas privadas para bajular, forma a base da liderança de Putin.

Putin está agora a tentar usar as mesmas táticas com o resto do mundo.
O retorno de Kudrin tem mais a ver com o convencer o Ocidente a levantar as sanções impostas à Rússia após a anexação da Criméia do que com escorar apoio entre o público russo, a grande maioria dos quais continua a aprovar do governo de Putin.

Os líderes ocidentais - começando com os da Europa que já estão começando a amolecer sobre sanções - deve reconhecer que o regresso de Kudrin é destinado apenas para preservar o status quo Kremlin.
Kudrin é um adereço, cujo papel é o de reforçar a imagem de Putin como um "homem forte-reformador".
Ele é o "bom polícia" para "policial mau", de Putin, que visa persuadir o Ocidente de que a Rússia pode ser confiável, ao mesmo tempo que exige respeito.
O Ocidente não deve permitir-se a cair para esta rotina cansada.

Na Rússia, quebrar fachada de Putin será mais difícil.
Para ter certeza, a realidade da vida lá hoje é gritante.
Além da economia de tancagem, os críticos de Putin têm sido sujeitos a prisão, prisão e, nos casos do jornalista Anna Politkovskaya e o político Boris Nemtsov, assassinato.
Depois, há os ataques cada vez mais frequentes sobre os cidadãos comuns - arrombamentos de casa, danos à propriedade e até prisão - para a publicação anti-Putin, anti-Kremlin, ou caricaturas anti-igreja e blogs.

Mas, em um movimento KGB-estilo verdadeiramente magistral, Putin terceiriza tanto a repressão e o liberalismo, mantendo-se assim acima da batalha.
O primeiro é tratado pelo equivalente russo do presidente Mao Hong Weibings, os voluntários ideológicos que, na década de 1960, realizaram ataques sancionados nos professores pensam livremente, cientistas, artistas e estudantes.
Este último é onde os gostos de Kudrin entram.
No final, nada muda; como a eleição presidencial de 2018 se aproxima, a fachada de Putin como o homem forte-reformador que a Rússia precisa permanece intacta.

Economista de Putin: Por que Kudrin aproveitado escrever Novo Plano de Reformas (Op-Ed)

Por Kirill Rogov
20 de abril de 2016 - 18:11
Alexei Kudrin serviu como ministro das Finanças da Rússia de maio de 2000 a setembro de 2011. Ele foi convidado a demitir-se do cargo pelo então presidente Dmitry Medvedev.

O presidente russo, Vladimir Putin decidiu que o ex-ministro das Finanças e vice-primeiro-ministro Alexei Kudrin deve elaborar um novo programa económico para o país.

Qualquer estratégia económica sensata deve basear-se no regresso da Rússia às transferências regulares de poder no Kremlin.
Nenhum governo deveria servir por 16 anos, e um segmento considerável da elite dominante entende isso muito bem.

Alexei Kudrin foi chamado para rejeitar essa ideia e, em vez de escrever um programa económico liberal para Putin.
Ele é projetado para reavivar a esperança entre a elite que Putin irá assumir uma posição mais progressiva durante o seu 19º ano no poder.

Kudrin tem de facto sido trazido para jogar um jogo velho.
Esta será a quarta tal programa do governo de Putin.

O primeiro foi elaborado por German Gref em 2000.
Na época, Putin estava cultivando a imagem de um homem forte-reformador, um homem que facilmente cumprira o desejo do povo russo por um líder forte ao lado as esperanças da elite russa para uma economia de mercado liberal.

O governo adotado nunca foi formalmente o programa.
Ministros tomaram o projecto "em consideração", permitindo que os líderes para implementar ou ignorar políticas como quisessem.

Imagine possuir uma carroça puxada por cavalos: Alguém traz-lhe planos para convertê-lo em um carro e você promete "ter isso em consideração."
Em algum momento, você anexar espelhos laterais, substituir as duas rodas traseiras com jantes de liga leve, aplicar tinta metálica para os painéis laterais e instalar um condicionador de ar para o motorista.
O resultado é que você tem ostensivamente alcançado 35 por cento cumprimento do plano.
O governo russo tem uma abordagem similar.

O sucessor de Gref como Desenvolvimento e Comércio Ministro Económico, Elvira Nabiullina, elaborou o segundo programa econômico.
Eram necessários seus esforços porque as realidades do boom do petróleo tinha descarrilado as reformas de mercado previstas por Gref.
O programa de Nabiullina foi uma tentativa de realizar uma coisa chamada "modernização petróleo".
Esse projeto foi aprovado em 2008, mas tornou-se irrelevante alguns meses mais tarde quando os preços do petróleo caíram.

O terceiro programa econômico liberal foi a famosa "Estratégia Europa 2020", escrito pelo ex-presidente Dmitry Medvedev.
Esse programa foi destinado principalmente para demonstrar o firme controle de Putin sobre ambos os conservadores-homens fortes e discursos de mercado liberal na sociedade russa.

Esta é uma das principais funções políticas dos programas econômicos liberais líderes da Rússia encomendados periodicamente.
Eles existem para impedir que alguém proponha alternativas políticas ou econômicas.
Aconteça o que acontecer na realidade, se o governo está embalado pelo caso Yukos, guerras de energia, ou a drenagem dos fundos de pensão, Putin faz questão de ter sempre um programa de reforma progressiva sobre a mesa.
Ele deixa claro que ele só poderá aplicá-lo a qualquer momento.

Este quarto programa irá aparentemente servir o mesmo propósito.
Mesmo depois de deixar o governo, Kudrin conseguiu construir o que poderia servir de base para um partido de oposição sistémica manobrando com habilidade entre a oposição moderada, mas constante e lealdade pessoal para Putin.
Claro, seria muito mais natural para Kudrin para dirigir um partido de negócios modernos, representam eleições e depois a cabeça uma facção Duma de Estado.
Para o Kremlin, que é uma opção inaceitável, como é cada ocorrência natural na política.

Kudrin recebeu promessas apenas uma vaga em seu novo posto.
Ele foi convidado a elaborar um programa económico que não tem status oficial ou financiamento.
Ele foi oferecido apenas poderes indefinidos no Conselho Económico do presidente, um corpo estranho e praticamente não-funcional que Putin não tenha consultado sequer uma vez durante todo 18 meses de crise econômica.

Kudrin tinha esperança de ganhar o status de "desenvolvedor exclusivo de novas reformas da Rússia" e, de acordo com rumores, ganhar uma posição sênior - possivelmente até mesmo vice-chefe da administração presidencial.
Na realidade, ele foi colocado com rédea curta e advertiram para não ir longe demais.

Isto apesar do fato de que Putin necessita muito Kudrin.
Ao trazer Kudrin à tona, Putin mata dois coelhos com uma cajadada só.
Primeiro, ele mantém a pressão sobre o governo do primeiro-ministro Dmitry Medvedev.
Em segundo lugar, na Rússia, os chamados "liberais sistêmicos" cumprem certas funções políticas e fiscais paradoxais.
Em outros países, é normal que os liberais econômicos para defender reduções na despesa pública, que, por sua vez, permite ao governo reduzir impostos e estimular o crescimento econômico.
"Liberais sistêmicos" da Rússia clamorosamente chamada para cortes de gastos sem nunca defendendo cortes de impostos.
Ao contrário, eles ainda vigorosamente opor cortes de impostos ao longo do tempo.

As autoridades têm tipicamente justificado esta política estranha, alegando que eles têm necessários para acumular reservas fiscais.
Ao longo dos últimos sete anos, enquanto os cofres estavam cheios, o mundo viu apenas como essas reservas foram gastas.
Que o excesso de caixa permitiu ao governo para evitar a implementação de reformas essenciais, mesmo durante um momento de crise econômica.
Foi gasto em encenar os mais caros Jogos Olímpicos da história e uma cúpula muito cara Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), salvando o Vneshekonombank (VEB) da falência, aumentando os gastos de defesa e segurança e na criação da Guarda Nacional.

Putin não precisa de um "partido de corte de custos" durante a crise econômica, e ele precisa ser um partido burocrático, não-política que não irá exceder os limites aceitáveis.
Esse partido deve se concentrar em aumentar o apoio para aumentar a idade da reforma: uma das principais medidas fiscais necessárias para preservar o "sistema Putin" durante esta crise econômica.
A expectativa é que Kudrin vai concordar com esse papel, sem fazer exigências políticas excessivas de sua autoria.

Ter alguém para cumprir esse papel parece ser a lógica por trás do movimento atual Kudrin propõe a elaboração de um programa econômico que, assim como os três anteriores, ninguém tem qualquer intenção de levar a cabo.
Ele não prometeu nada e está previsto para fazer um monte de trabalho sujo em troca.

Kirill Rogov é um analista político.

























O segredo da sobrevivência de Putin


ASSUNTOS MUNDIAIS
Andrei Kolesnikov
01 de junho de 2016




























MOSCOVO - Dois anos atrás, um longo processo de cada vez maior autoritarismo e isolamento sob o presidente Vladimir Putin culminou com a anexação da Criméia da Rússia.
Mas, mesmo com grande parte da comunidade internacional condenaram o movimento, os russos pareceram boas-vindas a ele.
Na verdade, "retorno" da península para controle russo teve um efeito profundo no sentimento público - que parece ter fortalecido o aperto de Putin no poder, mesmo que a Rússia enfrenta aprofundamento desafios políticos e económicos.

Em março de 2016, 83% dos russos apoiou a anexação da Criméia, enquanto apenas 13% se opuseram a ela.
Até mesmo os progressistas - incluindo alguns que protestaram contra o regime na Praça Bolotnaya de Moscovo, em 2011-2013 - têm encontrado na Criméia uma razão para apoiar Putin, embora com algumas reservas.
De fato, Putin goza agora um índice de aprovação de 80%, refletindo o quão perto ele e a Criméia estão ligadas nas mentes dos russos.

A razão pela qual a anexação tem atraído tal amplo apoio é simples.
Para a maioria dos russos, a Criméia continua a fazer parte do "império", tanto cultural como geograficamente.
Para ter certeza, a Rússia não possui o poder e os recursos para recriar um império, mesmo dentro dos limites do abstrato "mundo russo."
Mas concentrando-se em a Criméia, o regime de Putin foi capaz de criar um senso de justiça histórica restaurada e reanimar as expectativas de um regresso ao status de "grande potência".

Claro, nem todos na Rússia apoia a anexação.
E, de fato, os adversários do movimento são intratáveis, descrevendo Criméia como território ocupado.
No entanto, eles compreendem apenas uma pequena minoria e não têm nenhuma influência real (o regime cuidou disso).
Eles estão literalmente cercados por pessoas que inquestionavelmente apoiam as autoridades - e, especialmente, Putin.

Essa resposta pode ser surpreendente, dadas as consequências tangíveis da anexação - em particular, o impacto económico das sanções ocidentais, cujos efeitos têm sido agravados pela queda dos preços do petróleo desde junho de 2014.
O elemento emocional certamente desempenha um papel.
Mas esta não é simplesmente uma questão de manipulação por propaganda.

Na verdade, o principal motivo a maioria dos russos apoiam a anexação da Criméia parece ser precisamente isso: a maioria dos russos apoiá-lo.
Para a média pós-soviética russa, que recuperou a Criméia do seu sofá, controle remoto na mão, caindo em linha com a maioria é muito mais atraente do que balançar o barco - tanto assim que os russos estão a título definitivo recusando-se a pensar criticamente sobre o que está acontecendo .
É típico psicologia de massas.

Este apoio inabalável tem transitado para o "justo", "defensivo" e "prevenção" operações militares que Criméia catalisadas, de Donbas para a Síria, e até mesmo a guerra comercial com a Turquia.
Apesar dos riscos óbvios associados a tais movimentos, os russos aceitaram a narrativa que elas são necessárias para preservar a estabilidade, para não mencionar o status recém readquirido da Rússia como um "grande poder".

Como se isso não fosse contra-intuitivo o suficiente, os russos também parecem estar apoiando má gestão económica do regime de Putin, precisamente porque a sua situação económica é tão grave.
O russo médio tem sido rápido para reverter para hábitos associados com a cultura da escassez do passado recente.
Sua atenção está focada na obtenção de necessidades básicas como alimentação e vestuário; poucos estão interessados em analisar as causas de seus declínio dos padrões de vida.

E quem pode culpá-los?
Afinal, aqueles russos que não consideram o contexto político estão confrontados imediatamente com a realidade sombria: O regime tem eviscerado toda a oposição, não menos importante por alimentando medo de serem rotulado de "extremistas".
Mais de um crítico vocal do regime reuniu-se um fim prematuro.

É por isso que até mesmo manifestações de oposição alguma política do governo ou do resultado não são tanto "protestos contra", como "apelos" ao regime.
Sem mudança fundamental no sistema político, é improvável que tais manifestações, mesmo que eles se tornam mais freqüentes, vai tornar-se abertamente oposicional.
E, sem protestos de oposição, parece improvável uma mudança sistémica.

Na ausência de competição política aberta, Putin construiu um sistema de freios e contrapesos dentro da elite.
Um grupo de liberais legalistas ocupar cargos financeiros e económicos, equilibrando os falcões nas forças armadas e serviços especiais, incluindo estruturas como o Conselho de Segurança, que freqüentemente serve como uma incubadora para teorias da conspiração elegantes sobre parcelas ocidentais.
Claro, todos os membros da elite devem demonstrar continuamente a sua lealdade a Putin.

Este sistema mantém elites da Rússia de empurrar para a mudança (ao contrário do passado, quando essas elites se tentaram iniciar reformas), em que exclui a possibilidade de anti-Putin intriga.
E o regime parece relativamente estável, pelo menos por agora.
Na verdade, ele só ganhou força desde 2012, e agora, com o apoio popular pós-Criméia tendo lhe comprado algum tempo, o regime está a tentar adaptar-se ao mal-estar econômico, político e social prolongado a Rússia está enfrentando.

Mas esse tempo é, naturalmente, limitado.
É por isso que, antes das eleições parlamentares de Setembro, o regime está cada vez mais dirigir a atenção dos cidadãos para com "ameaças" internas - ". Traidores", isto é, opositores políticos e supostos
Um exemplo proeminente é o ex-presidente da Yukos Oil Company Mikhail Khodorkovsky, cuja expressões de dúvida sobre a liderança de Putin pousou na prisão e, posteriormente, o exílio.

Em 1970, o dissidente soviético Andrei Amalrik perguntou, em um ensaio profético: "Será que a União Soviética sobreviver até 1984?"
Devemos agora perguntar quanto tempo o regime de Putin vai sobreviver.
Parece provável que ele irá durar até a próxima eleição presidencial, em 2018.
Se ele vai aguentar até a eleição seguinte, em 2024, é uma questão que kremlinologistas - uma espécie de forma rápida recuperação - em breve será debatido.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A dama de pés de tigre e os três briteiros

José Couto Nogueira
A guerra entre a Inglaterra e a Escócia, uma tradição que remonta à alta Idade Média, está de volta. E não é somente por causa do Brexit e dos submarinos; é porque de facto a diferença entre Sturgeon, uma liberal de esquerda (só em Portugal é que o termo liberal se aplica à direita) e a ultra conservadora Theresa May não só tem um conceito imperial da Grã Bretanha como escolheu um Gabinete dos tempos pré-União Europeia. Se havia políticos contemporâneos no Partido, da linha de Cameron, evaporaram-se. Long Live Britania.


















Nicola Sturgeon, a pespineta primeira-ministra da Escócia, não hesitou nas palavras: "A escolha de Theresa May é a tomada do poder pela ala mais conservadora do partido conservador". 
Sturgeon está furiosa com o Brexit, como toda a gente sabe, e tem a seu favor a derrota completa da proposta na Escócia. 
Já depois do referendo, esta semana, houve uma votação sobre gastar 31 mil milhões de libras na renovação da frota de submarinos nucleares, estacionada em Clyde, na Escócia. Todos os parlamentares escoceses – menos um – votaram contra o projecto, apesar de representar milhares de empregos. 
Disse Sturgeon, numa manifestação londrina que a juntou a Jeremy Corbyn, o (ainda) líder dos Trabalhistas: "Estas armas têm um inenarrável poder e brutalidade, e são capazes de provocar terror e sofrimento numa escala fora da nossa compreensão".

Isto, quando Teresa May afirma, peremptoriamente, que se preciso fosse não hesitaria um minuto em carregar no botão vermelho.

Na área da moda e das modas, onde também há um fosso cheio de crocodilos entre Ralph Lauren e Vivienne Westwood, os especialistas não deixaram de notar a preferência de May pelos sapatos de pele de tigre e saltos rasos – um símbolo das classes superiores que frequentaram colégios finos e coleccionam prataria. 
Ou não fosse o marido da senhora, Philip, gestor de topo no Capital Group, uma empresa que "gere portfolios". (O equivalente em Portugal seria se Costa fosse casado com Maria Luís) 
Mas o Capital Group já veio dizer que marido e mulher não falam de trabalho em casa e que ele não tem influência nos milhares de milhões de que a empresa toma conta.

As opiniões de May são conhecidas há muito tempo e ela até se encarregou de as por em dia depois de escolhida pelos seus pares. 
É a favor de um controle apertado na emigração, pouco preocupada com as chamadas "liberdades civis" e contra a convenção europeia de Direitos Humanos. 
Quando foi Ministra do Interior, apresentou um projecto que incluía sanções para "extremistas que incitam verbalmente ao ódio". 
Na prática, propunha-se fazer censura prévia da programação das rádios e televisões – não de cada programa, mas dos autores e conceito dos programas. 
Também queria que os senhorios reportassem e fossem responsáveis por arrendar casas a imigrantes ilegais. 
E a deportação para quem incita ao ódio e – aqui o mais complicado – de todos os imigrantes que não consigam ter um rendimento anual mínimo. 
Dentre desse grupo, os pior remunerados teriam de se ir embora, e os remunerados assim-assim podiam ficar, mas não trazer a família.

É natural que estas medidas agora sejam postas em prática, uma vez que não só May tem mais poder como também teve o cuidado de escolher um ministério que pensa como ela. Três deles já têm um nome colectivo: os Três Brexiteiros. 
Porque estão encarregados de assuntos directa ou indirectamente ligados a separação do Reino Unido do Continente. 
E porque são a favor da Grã Bretanha imperial que terá morrido algures entre 1945 e a entrada para a União Europeia.

Boris Johnson, o mais mediático, toda a gente conhece. 
Fica muito bem como Ministro dos Negócios Estrangeiros, um homem que se notabilizou por insultar vários países e dirigentes, amigos e inimigos (como tão bem o Independent retratou neste mapa).

Alguns exemplos mostram como vai ser fácil o seu relacionamento nas águas da política internacional. 
Não gosta de nenhum dos candidatos americanos. 
Acha que "Hillary Clinton tem o sorriso olhar metálico de uma enfermeira sádica num hospício para malucos", mas também considera que "Donald Trump é uma boa razão para evitar Nova Iorque". 
Quanto ao actual Presidente, Boris atirou outro dia que "Obama tem um ódio ancestral aos ingleses porque é meio queniano". 
Poder-se-ia pensar que talvez seja por Obama ser democrata (além de meio queniano). Mas não. 
Também disse, na devida altura, que "George W Bush é um brutamontes texano vesgo". Quanto ao Presidente turco, não é a sua política que o incomoda, mas a vida pessoal: "Erdogan não passa dum masturbador que gosta de bodes". 
Lindo.

E a China? 
"Todos os desportos foram inventados pelos ingleses e os chineses só são bons a jogar ping-pong."

Só mais uma pérola: "A Papua Nova Guiné faz orgias de canibalismo."

David Davies, mais discreto, ficou com a pasta específica do Brexit. 
Já tem uma solução maravilhosa: a Grã-Bretanha pode fazer acordos comerciais bi-laterais com os países da União Europeia, um a um. 
O facto de os ditos países estarem impedidos pelo Tratado Europeu de fazer acordos individuais de comércio não o incomoda. 
Por acaso – a História tem destas voltas – neste momento está pendente no Tribunal Europeu um processo de Davies contra May, a propósito das leis de vídeo-vigilância que ela queria implantar e ele discordava. 
Mas é a favor da pena de morte e contra a adopção por gays.

O terceiro Brexiteiro é Liam Fox, no cargo de ministro para o Comércio Internacional. Médico de formação, Fox tem contudo um fino sentido comercial. 
Em 2009 descobriu-se que gastava mais do que devia em despesas pessoais como ministro-sombra (sim, são pagos pelo erário) e teve de devolver algum. 
Em 2011 resignou do cargo de ministro da Defesa de Cameron, porque fazia negócios com um fornecedor do ministério, Adam Werritty. 
Ficou a saber-se que até o levava nas suas viagens ao estrangeiro e o deixava participar em reuniões do seu gabinete. 
Politicamente, Fox é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo ("igual a incesto") e quis processar o "The Guardian" por publicar textos de Edward Snowden sobre a vigilância norte-americana em Inglaterra.

Voltando aos submarinos, o ministro da Defesa, Michael Fallon, é favor do investimento nos novos equipamentos, como seria de esperar. 
Talvez seja por aí que Nicola Sturgeon pegue para separar a Escócia, sem mesmo esperar que os Três Brexiteiros cumpram os seus papéis. 
A dama dos pés de tigre apoia-o, evidentemente.

Se não, não terá botão vermelho para apertar quando os amigos do masturbador de bodes vierem por aí acima.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Theresa May dá poder aos eurocéticos para provar as suas ideias

CLARA BARATA
14/07/2016 - 12:35 (atualizado às 18:04)


A nova primeira-ministra do Reino Unido despediu meia dúzia de governantes ligados a Cameron e construiu um governo de combate, para lidar com o "Brexit", que incluiu antigos rivais, como Andrea Leadsom.
A nova primeira-ministra do Reino Unido despediu meia dúzia de governantes ligados a Cameron e construiu um governo de combate, para lidar com o "Brexit", que incluiu antigos rivais, como Andrea Leadsom.
Theresa May completou a sua equipa de governo, que não é de todo a continuação do de David Cameron. 
Figuras importantes durante os anos Cameron foram afastadas, como George Osborne e Michael Gove, e foram chamados a assumir responsabilidades eurocépticos como Boris Johnson (Negócios Estrangeiros), Philip Hammond (Finanças) e até a rival que disputou com ela a liderança dos tories, Andrea Leadsom (Ambiente, Pescas e Desenvolvimento Rural), que terá de lidar com alguns dos sectores económicos mais afectados com o “Brexit”.

O afastamento mais sonante do segundo dia da nova primeira-ministra britânica no número 10 de Downing Street foi de Gove, um dos principais rostos da campanha pela saída do Reino Unido da UE e adversário de Theresa May na disputa pela liderança do Partido Conservador. 
Gove e May zangaram-se em 2014, quando ele era ministro da Educação e se descobriu que tinha dito ao jornal The Times que ela, enquanto ministra do Interior, não tinha conseguido “secar o pântano” do extremismo islâmico.

Agora, Gove foi substituído por Liz Truss, que era secretária de Estado do Ambiente e da Alimentação de Cameron e uma apoiante da permanência do Reino Unido na UE. 
Eleita deputada pela primeira vez em 2010, tornou-se a primeira ministra da Justiça no Reino Unido. 
É popularmente conhecida por um discurso no congresso dos tories em 2014 em que criticou os britânicos porque dois terços do queijo que comem é importado…

Boris Johnson, ninguém o leva a sério

Truss é uma das várias mulheres nomeadas por Theresa May – outra é Andrea Leadsom, que já integrava o Governo de Cameron, como secretária de Estado da Energia mas foi promovida – ainda que o Ministério do Ambiente, Pescas e Desenvolvimento Rural seja tradicionalmente visto como um dos menos prestigiados, diz Adam Vaughan no Guardian. 
Será pelo menos uma pasta bem difícil.

Andrea Leadsom, rival de Theresa May na luta pela direcção dos tories, fica com pasta da Agricultura OLI SCARFF/AFP

Os agricultores britânicos deixarão de ter acesso aos subsídios da União Europeia – cerca de 3000 milhões de libras por ano, diz o Guardian – e caber-lhe-á a ela lutar por apoios do Orçamento do Estado para substituir esta soma, que representa 55% dos rendimentos dos agricultores. 
Ou então não: num artigo de 2007, Leadsom defendeu que os subsídios europeus à agricultura deviam ser abolidos. 
Aguarda-se para ver como resolverá a questão, agora que chegou a altura do “Brexit”.

De caminho, noticia a BBC, foi eliminado o Departamento de Energia e Alterações Climáticas, transformado noutro, o Departamento de Energia, Empresas e Estratégia Industrial, sob a alçada do novo ministro da Economia. 
Ed Miliband, ex-líder do Partido Trabalhista e ex-ministro do Ambiente, classificou esta medida como “simplesmente estúpida”, num momento em que se multiplicam os desafios com os efeitos das alterações climáticas.

Nicky Morgan (Educação) e John Whittingdale (Cultura, Media e Desporto) não foram reconduzidos. 
A saída de Morgan, uma protegida do ex-ministro das Finanças George Osborne que apoiou Gove na corrida à liderança, foi celebrada pelos professores, com os quais teve múltiplas disputas. 
Whittingdale tinha a seu cargo a muito polémica remodelação da BBC, com inúmeros cortes.

A Educação foi entregue a Justine Greening, aumentada com a pasta do Ensino Superior – um sector que pode ser afectado seriamente pela saída do Reino Unido da União Europeia, não só ao nível do ensino como da investigação científica.

Equilíbrios e desafios

Priti Patel, secretária de Estado do Emprego de Cameron e estrela ascendente do Partido Conservador com o anterior primeiro-ministro –, foi a primeira mulher de origem asiática eleita deputada pelos tories, em 2010 – foi um rosto destacado do “Brexit” e da ala mais à direita do partido. 
Permanece no Governo, mas com uma pasta que há três anos defendeu que devia ser abolida: a do apoio ao Desenvolvimento Internacional.

Este é um governo de equilíbrios e desafios lançados aos eurocépticos: demonstrem na prática o que andaram anos a defender. 
Por isso inclui escolhas polémicas como Boris Johnson nos Negócios Estrangeiros, que está a causar espanto pelo mundo fora.

Philip Hammond, o novo ministro das Finanças, afastou já a possibilidade de um novo Orçamento do Estado de emergência – que tinha sido colocada por George Osborne. “A nossa economia vai mudar à medida que formos avançando, e vai exigir um conjunto de parâmetros de avaliação diferentes. 
Claro que queremos reduzir mais o défice, mas a forma como e o ritmo a que o vamos fazer é algo que agora temos de considerar, perante as novas circunstâncias económicas”, afirmou na manhã desta quinta-feira.

“Vamos sair do mercado único, em resultado da decisão de deixarmos a UE. 
A questão é como é que vamos negociar com a União Europeia, não do ponto de vista de membros, mas como vizinhos próximos e parceiros comerciais”, sublinhou.

Quem é Theresa May?
13/07/2016 - 21:47



Comparada a Margaret Thatcher, esta geógrafa de formação é aos 59 anos a segunda mulher a ocupar o número 10 de Downing Street, e queria ter sido a primeira, contam antigos colegas universitários.




Os seis trabalhos de Theresa May


AFP
2016/07/13 - 17:54























Divórcio Reino Unido/Bruxelas, unidade dos tories e do país, estabilidade da economia. A lista de desafios da nova primeira-ministra.

1. Formar governo
É o primeiro trabalho da nova primeira-ministra, que deve criar um executivo para gerir o processo de saída da União Europeia, o "Brexit". 
As mulheres deverão ter uma representação forte na equipa, que também tem de incluir os partidários do divórcio com Bruxelas – como o director de campanha de May, Chris Grayling – e ministros experientes – como o chefe da diplomacia do Governo que cessou funções, Philip Hammond.

2. Pedir o divórcio
Theresa May defendeu a permanência do Reino Unido na UE durante a campanha do referendo, mas assegurou que "Brexit" é "Brexit", e que espera conduzir o processo de saída "com sucesso". 
Disse que não accionará o artigo 50 do Tratado de Lisboa antes do final do ano, mas está sob pressão dos dirigentes europeus – e dos partidários da saída –, que querem que o pedido seja feito o quanto antes.

3. Negociar o melhor acordo
A sua principal dificuldade na negociação do "melhor acordo" (que garantiu ir obter): se quer garantir o acesso ao mercado único da livre circulação de bens, terá de aceitar a livre circulação de pessoas, avisou Bruxelas. 
Ora, foi o mote "não à imigração" que, em grande medida, garantiu a vitória da saída. Prevê-se que este seja um dos pontos mais difíceis da negociação.

4. Controlar a economia
A nova primeira-ministra terá de tranquilizar os investidores num momento em que a libra caiu e o Banco de Inglaterra detectou os primeiros sinais de risco para a estabilidade financeira. 
A quebra da libra deu um impulso às exportações, mas vários fundos imobiliários suspenderam operações e os grandes bancos planeiam mudar a sede de algumas operações parta outro país. 
A nomeação de May deu alguma tranquilidade aos mercados, mas a incerteza vai permanecer até ao fim das negociações. 
May terá que evitar uma recessão.

5. Unir os tories
Theresa May herda um Partido Conservador dividido entre adversários e apoiantes do "Brexit", com o ex-presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, na primeira linha deste último grupo. 
Traições, golpes baixos e insultos mancharam a campanha do referendo mas não só: a guerra interna aniquilou as pretensões de ascensão de Johnson e do ex-ministro da Justiça, Michael Gove. 
Aliaram-se agora a May, o que significa que se trata de uma formação que sabe cerrar fileiras em torno do líder em tempos de adversidade.

6. Manter unido o reino
É uma das prioridades de May: manter a unidade do país, quando a Escócia ameaça fazer um novo referendo sobre a independência, pois ali a maioria quer permanecer na UE. 
A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, já esteve em Bruxelas para apalpar terreno e repete que um novo referendo após o de 2014, que garantiu que o reino permanecia unido, está em cima da mesa.